4 de set de 2009

A medida do infinito - Capítulo II

2

"Father, into your hands,
I commend my spirit!
Father into your hands,
Why have you forsaken me?"
[Systen of a Down, Chop Suey!]

Lá fora. Há um mar de automóveis imóveis. Pessoas enjauladas no caos metropolitano. As ondas do rádio entram pela tua janela. Não posso escutar o que diz o locutor, mas posso ver a cara de descontente do ministro. Inerte. Minha janela sorri para o céu asfaltado. Um cardume de pombos enfeita os edifícios recém-inaugurados. As crianças. Não vejo crianças. Na maternidade, choram os idosos sem que ninguém perceba. Ainda penso em você.
Aqui dentro. Um olho míope observa o urso empalhado. O avião de papel ainda plana. Pousa. Uma estante cheia de livros que nunca li. Este quatro não é meu. Preciso de um uísque. A noite é tão gelada quanto a sua ausência. A televisão? Não. A adega. Isso, o uísque. E agora? A geladeira. Gelo. Eu até picharia um muro se eu enxergasse muros. Vejo apenas cercas. Cercas me cercam de arames farpados. Meu uísque solta farpas. Irrito-me e jogo a bebida no sanitário. Estou são. Vou escrever uma carta. Escrevo.
Mais um parágrafo. É a primeira vez que consulto meu léxico desde o exército. Ouço passos marciais. Uma marcha solene. Não. Não... Uma sirene. Alguém quebrou o braço, ou está desacordado. Entrará em coma profundo. Algum enjaulado não viu o Hermes de motocicleta. Um helicóptero sobrevoa a cena. Entrará em coma profundo. Assim. Como eu. Vivo um coma profundo dentro deste apartamento de paredes vivas.
Lá fora. A vida estrábica mata milhões de bebês por dia. Aqui dentro. Mato um bebê por hora. Lá fora. O trânsito estático estressa os motoristas. Aqui dentro. Sou um transeunte movido pelo álcool. Lá fora. O helicóptero sobrevoa o céu asfaltado. Aqui dentro. Cada página deste diário é um boeing 747 latente. Lá fora. Os hidrantes são sanitários. Aqui dentro. Irrito-me e jogo a bebida no sanitário.
O betume sai. Balbuceio as estrelas. Já é noite. Oculto, escuto.

Imagem: Cabeza Roja de Luis Gordillo

4 comentários:

Revista Antimatéria disse...

Bonito Blogue
A Revista Antimatéria te acompanha.
http://www.revistaantimateria.blogspot.com.

abraços!

Caio Rudá disse...

Não parece que era do exército.

Luis Adriano disse...

Eu realmente gostei mais da primeira parte, porque acho que o tema abordado foi mais compreensível e, ainda que você tenha dispersado a falar de outros assuntos, apenas a conversa com o interlocutor era o tópico.
Vale a pena ler os seus textos! :D

marcelo cajui disse...

Fala Thadeu!
caos!!! Um mundo cheio de anomias e desordem.

abraço.