3 de set de 2009

A medida do infinito - primeira parte

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Estou. Mais uma vez me encontro com o sono dos loucos. Pregado no sofá, escuto uma canção muda que diz: o fim de semana é somente um dia. A cerveja acabou e o século é vinte-e-uma vezes menos saliente que a minha barriga. Não há mais um sábado-a-noite na manhã de domingo. E não me olhe com essa cara de desentendida. Sei muito bem que suas noites tem sido longas e seus dias ainda mais curtos. Os cultos fazem mais barulho do que preces e apressam o fim do mundo como quem apreça bananas na feira livre: uma só visão de mundo domina o universo. Os cultos, com caras de intelectuais, fazem um barulho ininteligível: uma só visão de mundo domina o universo. Dois universos. Ambos controversos.
Não vou censurar seu vestido. Afinal, você está vestida. “E você está nu?”. Estou. Mais uma vez me encontro com o sono dos loucos. Pregado no sofá, escuto uma canção muda que diz: o fim de semana é somente um dia. Não há mais um sábado-a-noite na manhã de domingo. Você me roubou todos. Todos os meus discos. E não me olhe com essa cara de desentendida. Sei muito bem que suas noites tem sido longas e seus dias ainda mais curtos. Ainda sinto a canção muda gesticulando ao meu pé de ouvido.
A bíblia e a saia comportada avisam que é dia de culto. Não. Não me convide. Detesto barulho. Os cultos fazem mais barulho do que preces e apressam o fim do mundo como quem apreça bananas na feira livre. Contudo, comprarei um vinho e receberei alguns amigos, pois, como você bem sabe, não gosto de conversas barulhentas e oblíquas. Os cultos com caras de intelectuais e cérebros de avestruzes fazem um barulho ininteligível. Falam de um passado que não viveram, ridicularizam uma igreja da qual não fazem parte. Soltam palavras, palavras, palavras. Escuto ecos.
Eles. Nenhum dissertou sobre sua saia-de-crente. Nenhum escreveu sobre o seu vestido curto. Eles. Todos preferem não pensar. Ou pensam: “uma só visão de mundo domina o universo.”. Nós, porém, somos dois. Dois universos. Ambos controversos.



Imagem: A partida das bruxas de Luis Ricardo Falero
[fonte]

6 comentários:

Palatus disse...

Meu caro, curto muito essa gênero textual...sobretudo porque imbrica poesia e prosa,musical, sonoro, melódico etc...muito boa a forma com que dispõe o discurso...Congratulations!

Obrigado pela visita ao Palatus...volte sempre!

Georgio Rios disse...

IDEM ao que Palatus disse, meu chapa você está , enfim, no caminho certo!!!

Caio Rudá disse...

Muito bom, Thadeu. Muito crítico, Ricardo. Muito texto, meu caro. Muito caro quando virar livro. Muito livro, anticorpos (hífen?) e um feliz natal.

Ricardo Thadeu disse...

Palatus
Valeu mesmo, man.
Volte sempre também.

Georgio
Se o caminho é esse, vambora!

Rudá
Obrigado, Caio. Valeu mesmo, meu chapa. Muito massa, vírus criminal e uma feliz páscoa.

Luis Adriano disse...

Eu tive algumas dificuldades em compreender algumas das suas metáforas e comparações, mas, em vez de me sentir confuso, acabei gostando mais ainda do texto.
Gostei do jeito que você usou as palavras, da maneira como abordou a polissemia delas...
Vou ler a continuação!
:)

Avassaladoras Rio disse...

Querido amigo avassalador...
Angustias metaforicas com sentido esquizoide me remetem aos anos de estagio no Nisia da Silveira. Uma logica dos loucos , porem uma logica há. Ao leitor cabe liberar-se e viajar nas mesmas ideias...
Sono dos loucos...Gostei da ideia! Mas louco não dorme, sonha acordado todo tempo.
para os demais capitulos sugiro alma amarra a realidade mortal suburbana para que os devaneios mantenham o leitor intrigado.