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12 de nov. de 2016

CRÔNICAS DE UM FUTURO IMPOSSÍVEL: #FinalDeCampeonato (S.1, EP. 2)

A história que segue se passa em algum momento de nossa História futura. Dizem os astrônomos que estaremos na Era de Capricórnio, mas eu duvido de qualquer coisa que envolva políticos brasileiros, derivados da soja, astrônomos usando turbantes engraçados e duplas sertanejas.

— Vai rolar a bola! — Grita o narrador.
— Teremos uma partida e-m-o-c-i-o-n-a-n-t-e, caro Alvarola Juniorrrrr... — dispara o comentarista.
Os dois, comentarista e locutor, estão a milhas de distância do estádio. Provavelmente sentados no sofá, de cueca, respirando por aparelhos, barba por fazer, enquanto seus avatares personalizados tornam a transmissão mais palatável pro público
— Num oferecimento de... — Toca-se a vinheta, faz-se o reclame.
Nas luxuosas cadeiras do estádio, a torcida é quase a mesma. Camisas nas cores dos times, chapéus, bandeiras. Extinguiu-se apenas o grito de guerra. O silêncio na arena é mortal.
— E quem será o vencedor dessa temporada, Marcelinho Pedroso?
— A disputa está emocionante, Alvarola, temos um jogo muito disputado, as duas equipes empenhadas. Sei não, viu....
— Então, vamos conferir as parciais, com a repórter Juliana de la Peña!
No campo, uma repórter franzina, espremida na cerca de dois metros que ladeia o gramado, está de prontidão pra dar as informações. Em seu sorriso, há vestígios de desconforto e do clareamento dental recém aplicado numa clínica clandestina.
— Pois é, Alvarola, a disputa está apertadíssima, ninguém sabe quem vai ser o vencedor e a demora na divulgação das parciais está deixando todo mundo confuso, Alvarola!
— Juliana, e qual é o clima aí no gramado?
— Tempo bom, Alvarola! Estamos com 29 ºC, umidade 73%, com ventos de até 18 km/h, Alvarola!
— E os jogadores, Juliana?
— Estão tranquilos, esperando seus vencimentos e o bicho da partida, Alvarola!
— E os avatares?
— Os avatares já estão em campo, emulam os melhores momentos de um jogo clássico da Era dos Clubes: semifinal da Taça Libertadores da América de 2000, Alvarola!
— Obrigado, Juliana! — Nova pausa pra vinheta — E você também pode decidir essa disputa! Se você quer que o time alviverde vença, envie #GoAlviverde. Se você quer que o Alvinegro vença, #GoAlvinegro!
Sessenta mil torcedores com os olhos fixos nas telas de seus smartphones. O serviço de som anuncia o vencedor. O tempo muda. Uma chuva de hashtags desaba sobre a arena.

São Marcos se eternizando em 2000. Mais sobre esse episódio AQUI

11 de out. de 2016

CRÔNICAS DE UM FUTURO IMPOSSÍVEL: A morte da morte (S.1, EP. Piloto)

Hoje, nós conseguimos acabar com a morte. Nós não, um grupo de gringos com “Dr.” antes de seus sobrenomes enormes com mais consoantes do que vogais. Eles venceram a morte. Nós, a vida. Eles comemorarão o Nobel. Nós celebraremos uma garrafa d’água que sobrou de ontem. E continuaremos "morríveis" como meros mortais que somos. Reviver exige: dinheiro, tempo, um corpo são, alguma sorte e pouca fé. Tudo que nós não temos. Dinheiro não existe. Tempo é trabalho. Corpo são... Com essa água...  Fé é o que nos resta.
A água, aliás, está cada vez mais barrenta. Para nós, anciões da virada do século, tomar banho de lama com cheiro de merda é um insulto. Imagine a cara de decepção desse sujeito, que foi ressuscitado, ao perceber que cair nos braços da criogenia não foi uma boa ideia. Deve ser a mesma cara que a gente faz todo dia, diante das ondas que quebram onde antes reinavam solitários os xique-xiques.
Semana que vem, farão um novo experimento. Aquele cantor famoso que fazia caridade será revivido. Teremos um Sir de volta à vida. Daria um mês fechado de minha aposentadoria mais duas garrafas de H2para presenciar a cena do descongelamento:
— Senhor P., seja bem-vindo de volta!
— De volta?
— O senhor estava morto. Quer dizer...  Seu corpo foi preservado e nós conseguimos ressuscita-lo.
— Good. Onde está meu smart phone?
— Smart phone?
— Sim, preciso postar isso em meu Twitter.
— Senhor P., precisamos conversar sobre o futuro.
E depois de uma longa prosa sobre os novos e velhos rumos da humanidade, o Senhor P. se convencerá de que a vida nos anos cinquenta, sem desodorante spray no supermercado da esquina, era uma merda; no começo dos anos dois mil, com o MP3 e as musas pop, também era uma merda. Mas era uma merda puramente metafórica. A literalidade acaba com o romantismo das narrativas de época. De qualquer época.

Jimi Hendrix e Mick  Jagger (1969)

22 de ago. de 2016

REC Temporada 2/Ep. 9: A gaveta das memórias é um negócio de família

Quando eu ainda morava na Rua do Cemitério, gostava de mexer nas gavetas dos mais velhos. Minhas gavetas eram sempre as mesmas: duas de roupas, uma de livros da escola, uma com jogos de tabuleiro, que nunca aprendi a jogar, e uma que servia como cemitério de bonecos e ferro-velho de carrinhos. Uma chatice. Criança não tem o que esconder em gavetas. Afinal, ainda não acumulou um passado em papéis, fotos e cartas.
As gavetas dos adultos tinham o jeitão deles. Meu pai guardava, numa gaveta do guarda-roupa, um montão de papéis da época do estágio, alguns classificadores com atividades e documentos que ele arquivava com cuidado. Tinha também alguns álbuns de figurinhas incompletos, fotos da época da juventude, revistas de mulher pelada e livros de disciplinas que já tinham saído da grade curricular quando ingressei na escola. Por fim, tinha umas cadernetas escolares, de controle de presença, que eu gostava de folear. No cabeçalho, lia-se “Centro Educacional Cenecista N.ª S. da Conceição”.
— Vovó, o que é Cenecista?
— Cenecista? Pergunte a seu pai.
— Papai, o que é Cenecista?
— Cenecista? Ah, pergunte a sua mãe!
E eu entrava numa daquelas gavetas de perguntas que enfiam as crianças até elas se convencerem de que não foi uma boa ideia perguntar.
Minha mãe guardava, num compartimento da estante da sala, um monte fotonovelas, almanaques, revistas de horóscopo, de moda e de fofoca da vida de artistas que eu não sabia o nome. Tinha também uma coleção de livros clássicos e alguns religiosos que ela deve ter comprado nos tempos de Pastoral da Juventude. No guarda-roupa, ela tinha uma cabine cheia de cosméticos que despedaçavam com um simples toque. Aprendi que era melhor ficar longe dessa última gaveta. Tomar duas chineladas por causa de um vidro de esmalte tão sensível não era legal.
As gavetas mais legais eram as de minha avó. Ela tinha uma máquina de costurar com quatro. Cartas escritas à mão com uma caligrafia linda, cordões, linhas, agulhas de vários tamanhos, tesourinhas de unha (que envergavam as pernas e cabiam numa caixinha retangular), bilros, prendedores de cabelo, canivete enferrujado, anéis de prata, terços de cores variadas, livrinho de catecismo, relógio magnético, moedas e cédulas antiquíssimas, caderno de debuxos, minidicionário (bem pequeno mesmo, preso a um chaveiro) e todo tipo de retalho de memória que ela conseguia dobrar e enfiar naquelas quatro gavetas.
Quando mudei pra Bela Vista e vi a quantidade de coisas que levávamos na bagagem, percebi que todo adulto lá de casa colecionava, a sua maneira, um pedaço de história. Coletâneas de recordações mais ou menos como esta que faço aqui no blog. Talvez esse gosto por objetos do passado seja uma coisa hereditária. Talvez seja uma coisa exclusiva nossa, um trato tácito de não apagar o que passou, family business.

Capa da fotonovela "Sétimo Céu" (Bloch, 1982)
Esta e outras raridades você encontra AQUI

25 de mar. de 2016

REC Temporada 2/Ep. 8: Batendo perna no picadeiro da vida

No meio de um jogo de gude, um menino chegou avisando que tinha circo na cidade.
— O moço ta dando ingresso a todo mundo! Bó lá, bó lá!
Quebramos a praça do fórum, deixando as gudes e sandálias pra trás, e saímos correndo, uns quinze, na direção do Campo da Nação onde se arma circo até hoje. No meio da lona, dos ferros e das tábuas que virariam arquibancadas, estava o palhaço. Seco, alto e com uma pintura quase desbotada, fazia todo tipo de galhofa pra uns oito meninos que já estavam lá antes de minha manada chegar em busca de entradas pro espetáculo daquela noite.
— Quem quer ingresso?
— Eu!
— Quem quer entrar de graça?
— Eu!
— Quem faz xixi na cama?
— Eu!
Risadas, risadas e mais risadas. Tudo de verdade, criança não ri pra agradar ninguém.
— A gente vai dar uma volta na cidade. Quando eu disser: Hoje tem palhaçada? Vocês respondem: Tem sim-senhor! 
— Hoje tem marmelada?
— Tem sim-senhor!
— Hoje tem trapezistas, malabaristas, equilibristas e o globo da morte! Não percam!
Percorremos a cidade toda no encalço do palhaço. Meninos e meninas se juntavam ao grupo por livre e espontânea vontade. Quando alcançamos da igrejinha da Bela Vista, já éramos uns quarenta. Por fim, ganhei meu ingresso. Cheguei em casa com a canela cinza e um sorriso cheio de dentes amarelos. Minha mãe estava na sala, cortando isopor. 
— Umbora, mai-nha! Vai ser bom!
— Chame seu pai, eu não gosto se circo.
Assim eu fiz:
— Ô, papai, bora...
— Mais qua! Gastar dinheiro com circo. A gente já vive num circo.
— Mas eu ganhei o ingresso ajudando o palhaço, ó aqui!
— Gastou canela à toa. Aqui diz: desconto na entrada. Nada é de graça nessa vida.
Não chorei mais porque, assim que o espetáculo começou, pude ouvir tudo da casa onde a gente morava. Só depois de grande entendi o que meu pai quis dizer. Antes de gastar canela é preciso usar a cabeça pra não ser feito de palhaço por aí.

Capa do VHS de um cráássico da Sessão da Tarde:
Os Saltimbancos Trapalhões (1981)

23 de mar. de 2016

REC Temporada 2/Ep. 7: Julgando um livro pelo riso

O que aquele livro da capa roxa tinha de tão especial? Meus amigos e eu não sabíamos. Os meninos mais velhos apreciavam a “obra proibida” juntos. Em algum canto, longe dos olhares das professoras, liam um trecho. Depois, riam e faziam cumprimentos legais com as mãos. Nós, pirralhos diante de lancheiras abertas, só observávamos. Uma vontade danada de fazer parte daquela conversa. Mas que porra de livro era aquela? Nenhum de nós ousava encostar pra perguntar. Era cascudo e beliscão na certa. Fora a pirraça eterna.
— Do que esses menino tanto ri?
— Sei não, Tuca.
— Eu queria rir também.
— Meu tio fala coisa engraçada...
— Esse livro deve ser bom.
— Melhor do que a cartilha?
— A cartilha é engraçada? 
— Sei não, Tuca. Tu acha?
Conversar com Tuca era isso aí. Eu nunca sabia de nada e ele sempre falando que queria fazer as coisas que só os meninos grandes podiam.
No ano seguinte, a gente teve o primeiro contato com a biblioteca. A professora inventou uma maratona de leitura. Ganhava quem lesse mais obras no tempo que ela determinou. A meninada correu pras estantes de livros fininhos. Não sobrou um Chapeuzinho Vermelho pra contar história. Foi aí que, numa prateleira repleta de Vaga-lumes, achei um exemplar do livro da capa roxa.
— Será que é o mesmo?
— Deve ser.
— Deixa eu ler?
— Depois de mim.
Atrapalhada com tanto menino pra pegar livro, a bibliotecária mudou a estratégia:
— Vocês levam os livros e a professora passa uma lista de empréstimo na sala.
Não teve lista certa. Ficou tudo na confiança. Quem, naquela idade, roubaria um livro? Corri pra casa do jeito que minhas banhas permitiram. Mal cheguei, comecei a ler. Começando pelo título, que eu nem tinha decodificado na escola: Antologia do Conto Adulto.
Na manhã seguinte:
— E aí? Leu?
— Li. 
— É engraçado?
— Não. 
— É de terror?
— Não.
— E o que essa peseta tem então nesse livro da capa roxa? 
— Tem umas histórias de ousadia...
— Uia... — disse Tuca naquele tom ameaçador que menino faz quando sente inveja da estripulia que outro fez.
— E tem um monte de palavra que eu não sei o que é.
Fiz a devolução e fingi que não tinha lido pra não me encrencar. Peguei um exemplar manjado d'O Escaravelho do Diabo e desisti da maratona na primeira semana. Não lembro de nenhuma história do tal livro da capa roxa. Nem sempre livros especiais tem algo de especial em suas páginas.
Jovens Contos Eróticos (Vários Autores, Brasiliense, 1987)

20 de mar. de 2016

REC Temporada 2/Ep. 6: Quando o medo bota ovo

O pior medo que eu tive no tempo de criança vivia dentro de minha cabeça. Em algum lugar, entre o medo do escuro e o medo de lobisomem, em alguma porta entre a do medo de careta e a do medo de doido, em alguma casa entre o castelo do conde Drácula e o número 71 da vila do Chaves. Lá, residia o medo da morte. Monstro primitivo que não devora crianças que não dormem cedo. Não, ele fica escondidinho até a gente se deparar com a perda de um ente querido. Um cachorro atropelado, um tio-avô centenário que perdeu as forças, uma vizinha que ficou careca e depois foi morar com Deus.
— Ela morreu?
— Morreu, meu filho. Agora, ela mora no céu.
— Eu queria morar no céu. 
— Bate na boca, menino!
— O céu é ruim?
— Não, é bom... um lugar bem bonito.
— Então...
— Mas só entra lá quem Papai do céu chama.
Ninguém me convidava pros aniversários. Vovó nunca deixou eu morar na casa dela. E se Papai do Céu não me quiser lá também? Vovó conversa com ele mais do que eu. E agora? Vou ficar pra semente? E se eu morrer sem o convite? Vou ficar de camisa preta, assombrando o povo que nem Alexandre daquela novela?
— E quem não vai pro céu quando morre?
— Vai pro inferno, morar com o bicho de olho de fogo.
— O diabo?
— Olha a boca!
Eu não podia falar o nome do contrário de Deus, mas Tião Galinha falava o tempo todo na novela. Era "diabinho" pra cá, "cramunhão" pra lá. E quando o pobre lavrador galináceo morreu enforcado numa cela, minha mãe me tapou os olhos.
— Olha isso não! 
Fiquei curioso. Aquele medo, que andava escondido dentro da cabeça, decidiu sair e coçar, como uma pulga, atrás da orelha.
— Titia?
— Oi?
— Como Tião Galinha morreu?
— Foi assim — e a tia juntou 3 medos num: careta, cara de doido e jeito de morto.
Chorei de medo. Medo do monstro mais primitivo, daquele que continua assombrando os homens até que eles não tenham mais uma vida pra temer. O medo de sentir medo é mais forte que o medo do fim.

Tereza Seiblitz (Joaninha), a Galinha e Osmar Prado (Tião)

Bônus: Quem quiser "fechar o corpo" com um Diabinho na Garrafa, basta clicar AQUI pra ver a receita completa na voz inconfundível de Antônio Fagundes (Coronel Zé Inocêcio).

19 de mar. de 2016

REC Temporada 2/Ep. 5: Cada pessoa escolhe aquilo lhe acolhe

Meus pais eram católicos. Bem católicos. Ainda são. Por isso, quando meu pai comprou um som com tocador de CD, vários cantores de igreja começaram a entoar seus hinos lá em casa. O bom dessa época é que a gente via menos televisão e escutava mais música. A ruim é que eu não tinha grana pra comprar meus próprios CDs. Aí, o jeito era rezar pra que meu pai escolhesse “O Grande Encontro”, ou “O Terço Toca Raul”, ou qualquer um do Pink Floyd. Eu tinha umas fitinhas de punk rock e reggae, que consegui com uns brothers da Rua do Cemitério, mas não podia ouvir na presença dos mais velhos.
— Você pode escutar o que quiser. A escolha é sua. Mas quando eu estiver em casa, quem escolhe o CD sou eu. Combinado?
Tinha como descombinar?
Um dia, meio injuriado com a vida, coisa que acontecia toda hora na pré-adolescência, olhei pra capa de um daqueles CDs das Paulinas e soltei essa pérola escrota:
— Esse cara é viado.
— Oxe, viado? — Respondeu minha mãe franzindo a testa.
— Olha esse arco-íris na capa do CD — respondi em tom de afronta mesmo, eu não tinha noção do perigo.
— Dark Side of the Moon tem um arco-íris na capa, não tem? — Disse meu pai, tropeçando no inglês.
— Mas ali...
— E outra: se ele for viado é da conta de quem? — Disse a mãe encerrando o assunto e aumentando o volume.
O CD com o arco-íris na capa (e um cara de jaqueta jeans e crucifixo no pescoço) ainda está lá na estante da sala. Meus pais já não curtem um som como naquela época, por falta de tempo. Ou por aquele desinteresse por coisas “menos importantes” que a idade traz. Mas continuam ensinando os mais novos a não se meter na escolha e no jeito dos outros. Combinado?

Jonny, A força da oração, Paulinas
Mais informações AQUI

29 de fev. de 2016

REC Temporada 2/Ep. 4: Ninguém mascava chiclete até acabar o gosto

Todo mundo queria as figurinhas. Aquelas dos dinossauros que vinham na bala amarga. Aquelas que vinham no chiclete e que colava no caderno, raspando com a unha do polegar. Aquela outra que vinha no pacote de biscoito e não perdia o cheiro e o visgo do biscoito nem a pau. E aquela outra que vinha no chocolate e nossa mãe usava pra marcar livro. Ninguém queria o salgadinho. Ninguém ligava pro chiclete, ou pra a bala amarga, ou pro chocolate. Aliás, o chocolate todo mundo queria. Mas eu não dividia.
Enfim, quando os poquemons invadiram como vikings nossas vidas, saqueando nossas aulas de geografia, queimando nosso tempo livre e pilhando toda a grana que pingava em nossos bolsos, um fabricante de petiscos ensacados fez o imenso favor de lançar cartinhas colecionáveis (jogáveis e brigáveis) dos monstrinhos que apareciam no programa de Eliana de segunda a sexta.
— Pai, me dá cinquenta centavos?
— Cinquenta centavos? Tu quer isso tudo pra quê?
Isso tudo. Era uma dinheirama da porra mesmo. Dava pra comprar cinco geladinhos de Dona Tereza, ou uma acarajé, ou um misto no São João, ou um cachorro-quente na quermesse de São Roque, ou um refi em lata, ou um salgadinho que vinha com figurinha colecionável (jogável e brigável).
— Mas é cada uma! Salgadinho! Tu nem gosta de salgadinho!
Isopor com sal não é minha praia até hoje. Mas, e a figurinha?
— Eu como salgadinho sim!
Só comprei um. E não consegui engolir todas aquelas conchinhas com cheiro de vômito. Naquele período, enchi a pança mesmo foi com os apresuntados da cantina da escola. E dormi como o Snorlax da única cartinha que eu tive.

Card Pokémon Snorlax (Elma Chips, 2000). Minha cara, não?
Veja essa e outras curiosidades aqui.

8 de dez. de 2015

REC Temporada 2/Ep. 3: Nas roupas, as rugas do tempo

Roupas e acessórios são como membros órfãos que tentam se ajustar às formas do nosso corpo. Tentam ser adotadas. Tentam ser corpo. O boné do careca ajusta-se às dobras da nuca, tentando, a todo custo, ser cabelo. A camiseta surrada do roqueiro, com a estampa do Ratos de Porão, tenta ser pelugem, resguardando o jovem músico das pancadas da guitarra elétrica. O tênis fuleiro da adolescente arriscar-se no asfalto quente e nas poças d’água, pois almeja ser pé. A calça jeans da funkeira quer ser pernas e bunda, assumindo as sinuosidades dos músculos. A luva do goleiro chega antes naquela bola indefensável, sonhando jamais ser descalçada pelo arqueiro-herói.
Quanto mais tempo passamos com uma meia, ou um anel, ou uma pulseira, mais o objeto acredita que faz parte de nós. Por isso, é tão difícil jogar fora aquela bermuda floral descosturada. Ou aquela pochete de seis bolsos que você ganhou no Inimigo Oculto da empresa. Ou aquele troço plástico de R$ 1,99 que te enforcava na sétima série. Ou aquele short confortabilíssimo que você usava na aula de Educação Física e só parou de vestir porque virou peneira. Ou aquela gravata que você comprou no casamento da prima e nunca mais desfez o nó. Ou aquele relógio Casio que dizia ser à prova d’água e, na primeira prova, provou toda a água da piscina.
Tive um relógio desses, presente de meu pai. Não tirava para nada. Um dia, a pulseira se rompeu no meio de um baba. Despedaçou mesmo, sem chance de remendo, ou troca. “O único jeito” — disse o relojoeiro na feira livre — “é trocar a caixa e eu não tenho a caixa original desse relógio.”.  Tive que ficar mais de um ano com a marca branca do relógio Casio que queria ser pulso. Foi aí que comecei a pensar nessas coisas. Comecei a entender que esses trecos vão e as pessoas ficam. Também as pessoas vão embora um dia e talvez fique em nossa memória apenas aquilo que elas queriam ser.
Não faço aqui, caro leitor, nenhuma apologia. Nem ao apego excessivo, nem ao consumismo. Sei que muitas roupas e objetos obsidiam os donos por serem filhas-únicas. Sei também que outras sequer experimentam a sensação de tocar a pele do proprietário, pois ficam congeladas em grandes caixas e armários à espera de um caridoso transplante em campanhas do agasalho. Falando nisso, o Natal se avizinha. Que tal dar chance pr’aquele casaco novinho tentar ser corpo, aplacando o frio de alguém?

Foto: Georgio Rios

7 de dez. de 2015

REC Temporada 2/Ep. 2: Trezentos e sessenta e cinco dias e quatro horas no banheiro

Nos anos noventa, nudez na tevê era a coisa mais comum do mundo. Tinha gente seminua nos programas infantis. Tinha gente seminua nos programas de auditório. Tinha gente seminua em programa de culinária. E tinha muita gente semi e nua na transmissão do carnaval. A Banheira do Gugu, atração do programa dominical quase homônimo, começava domingo à tarde e contava com uma multidão de “artistas” seminus pegando sabonete, se pegando e pagando o máximo de partes do corpo possível. Mas a coisa toda não chamava minha atenção. Eu via, achava engraçado às vezes. Até imitava o apresentador: “Valendooo!”, mas não maldava. De verdade. Só que o tal quadro perdurou. Perdurou. Perdurou. Tempo suficiente para minha voz ficar mal sintonizada. Eclodiam as primeiras erupções em minha cara quando, num domingo, procurando qualquer coisa na carteira de meu pai, uma moeda talvez, encontrei um objeto que mudaria para sempre o rumo da humanidade. Pelo menos na minha perspectiva. Um calendário de mulher nua. A foto não era das mais explícitas, eu saberia depois. Mas, para um saco de hormônios de 11 anos e meio, de olhos curiosos e que ficava corado com a seção de lingerie da Revista Hermes, aquele retrato (com os meses e dias de 1998 no fundo) era o ápice da pornografia impressa. Eu já sabia (mais ou menos) como as engrenagens rodavam neste departamento, tive aulas esclarecedoras no colégio e cantava de cor os clássicos Coca-Cola Espumante e Mariazinha Danada. Mas nem as aulas, nem a cantoria desbocada faziam aumentar o volume da cueca Zorba no embalo do coração que quase saíra pela boca. Aquele calendário, sim. Foi aquela foto que mudou a forma como eu folheava os catálogos, via a Banheira do Gugu e, é claro, encarava o sexo oposto.

Luiza Ambiel, Tiririca (dos tempos de Florentina de Jesus) e a Banheira.
Créditos da imagem: Veja.

6 de dez. de 2015

REC Temporada 2/Ep. 1: Uma hora sem controle

Ao brother Yargo, que também fez parte dessa história

Pra maioria dos meninos de Riachão, no decorrer dos anos noventa, o domingo era um dia dedicado a liberdade. Andava-se de bicicleta livremente na Praça da Matriz e na Landulfo Alves. Jogava-se gude no jardim do Fórum e nas ruas sem calçamento dos bairros. Aqui e ali, batia-se o bom e velho babinha descalço. E, é claro, jogava-se videogame. Correção: jogava-se MUITO videogame nas locadoras que se espalhavam como ninhos de formigas pela cidade. Não é exagero dizer que, no centro, tinha uma em cada esquina. E eram lugares mágicos. Televisões de tubo enfileiradas, duas cadeiras plásticas na frente de cada tela, musiquinhas repetitivas ao fundo, botões de joysticks sendo massacrados sem qualquer cerimônia e garotos ferozes disputando quem latia mais alto. Mas tinha um tipo bem comum nas locadoras, que tirava a vontade de jogar de qualquer um: o Piru. Sempre tinha um Piru. Ou dois. Ou três. Ou um bando inteiro esperando o sleep timer da tevê avisar que faltava um minuto:
— Ei, moço! Apareceu o tempo! E depois é eu.
— Né nada, é eu! — grugulejava outro Piru batendo no peito com força.
— Né nada, é eu! Se sai! — grugulejava outro Piru, fazendo a clássica posição de “vai encarar?”.
— Né nada, é eu! Já avisei! — grugulejava outro Piru que, mesmo tendo chegado por último, dizia que era dele a vez só para tumultuar.
— Oxe... E eu não jogo não, é? — grugulejava o Piru mais comum de todos, que nem iria jogar, mas como fazer barulho e dar pitaco era de graça... Eu me incluía nessa classe.
E toda essa confusão para colocar “um real de tempo”, uma hora exata. Ou cinquenta centavos, meia hora. Mas era naquele tempo que aconteciam as brigas de rua mais emocionantes, as partidas de futebol mais acirradas, as corridas de carro mais disputadas, as voltas de skate mais radicais do mundo. Mesmo depois que a tevê desligava, sempre dava tempo de ir mais uma luta, ou terminar uma parelha, ou acabar o jogo. Sempre dava tempo de se divertir. Jogando, ou piruando. No controle, ou na arquibancada. Sempre dava tempo de ser livre, de ser criança.

Momento raro: uma locadora sem Piru. Créditos da imagem: PlayReplay

12 de out. de 2015

REC #10 (PARTE 2): O Super-Homem Trapalhão

Sempre gostei de super-heróis. Até os sete anos, eu queria ser um super-herói. Tipo aquele menino trajado de Flash do filme “A creche do papai”. Num dia, eu era o Lion dos ThunderCats e saía quebrando as plantas da casa de vovó com a minha espada de brinquedo. Noutro, eu era o Black Kamen Rider, de cinto e cueca pulando pelo quintal. 
— Anda, Ricardo! Vem tomar banho!
— Eu não sou Ricardo, sou Jaspion— e começava a lutar com o MacGaren invisível.
Houve um tempo em que, na hora do almoço, assistíamos a repises d’Os Trapalhões. Eu amava um episódio no qual Didi, interpretando Superman, vive situações hilárias: voa pelos céus e, como na cena clássica, é confundido com pássaro, avião, foguete e, por fim, "um palhaço voando"; não consegue brecar e quebra uma janela; e quando disfarçado de Clark Kent, é chamado de "Super-homem" por todo mundo. Foi daí que me veio a ideia de ser o próprio homem de aço. "Ora, se Didi Mocó pode, eu também posso.". Improvisei uma capa com uma toalha de banho e vesti uma cueca por cima do calção vermelho do uniforme da escola. Subi numa cadeira da cozinha, escalei o tanque de lavar roupa e alcancei uma mesa bem alta da área de serviço. De lá, fiz o primeiro e último voo de minha carreira heroica. Com um galo na testa e o queixo ferido, descobri qual era a minha kryptonita, sem precisar enfrentar Lex Luthor.

Cena do humorístico Os Trapalhões, episódio "Didi Super-herói"

11 de out. de 2015

REC #10 (PARTE 1): Meninos de pés descalços

O doze de outubro era um dia de farra em minha rua. Enquanto umas crianças corriam pelo passeio do fórum, rebocando seus carrinhos ou acalentando bonecas, outras chutavam bolas coloridas no jardim das algarobas. Dona Tereza, vendedora de doces e gudes, quase não conseguia atender a tantos miúdos na janela de sua casa. Inclusive eu, que sempre ganhei presente no dia das crianças. Meus pais se esforçavam para comprar algum brinquedo, mesmo simples. Em 95, ganhei um tanque de guerra movido a quatro pilhas de um tamanho tão especial que meu pai não achou para comprar. Com o motor desligado, as esteiras, por onde deveriam correr as rodas, não se mexiam. Nem para trás, nem para frente. Triste, com os olhos inundados, fiquei lá admirando o caminhão-estátua. Foi quando um amigo meu chegou. Ele sempre ia lá em casa puxando seu carrinho da polícia.
— Tu ganhou esse tanque de guerra?! — perguntou o amigo fazendo festa.
— Foi, mas não anda não. Painho não achou a bateria dele.
— Tem nada não, dá para brincar com ele parado!
— Tu também ganhou um carro?
— Já tenho um carro, ganhei no ano passado.
Olhei para o carrinho da polícia numa ponta do barbante. Na outra ponta, havia um menino de pés descalços e enlameado dos pés à cabeça, vibrando com o mesmo tanque de guerra pelo qual eu chorei. Não lembro o que senti naquele momento. Vergonha, eu acho. Enquanto eu ganhava um presente diferente a cada dia das crianças (aniversário e Natal), meu amigo ganhava o mesmo todo ano. Quantas crianças da minha rua não ganhavam nem isso e estavam lá no passeio puxando caixas de sapato? Todo mundo feliz da vida.
— Bora brincar lá fora? Tá todo mundo lá.
— Bora!
Meus olhos secaram e eu fui brincar na rua. Só voltei no final da noite, de pés descalços e enlameado dos pés à cabeça.

Da série Chapolim, episódio: O menino que jogava fora seus brinquedos

10 de out. de 2015

REC #9: De cowboy, poeta e louco, todo mundo tem um pouco

Desde bem pequeno, eu decorava poemas para recitar em datas comemorativas da escola. Tinha o poema do dia da pátria, o poema do dia do índio, o do dia das mães. Tinha até um poema para o dia do silêncio. Em 99, no dia do folclore, resolveram fazer uma “festa do boi”. Era uma miscelânea de baile de rodeio, festival de Parintins e forró de vaquejada. A escola ficou cheia de adornos rurais e todo tipo de apetrecho relacionado a tríade boi-cavalo-gente. Os corredores pareciam um cenário de faroeste. A bem da verdade, mais para Roy Rogers do que para Django. Alimentando o velho costume, fui decorar alguns versos para recitar na comemoração. Minha mãe gravou uma fita com rimas de Marco Brasil, famoso locutor de rodeio. Decorei um “gigante” que abria o primeiro CD “Bailão do Peão”. Na hora da apresentação, disfarçado de Tex Willer, eu esqueci alguns trechos do repente. Para completar, eu tinha aprendido “de ouvido”. Sem uma banda de papel como referência, “Não sou aberto a arte de montar” virou “Não vou a berro da arte de montar”, “Com meu jeito simples sigo a narrar” virou “Com meu jeito simples de guanarrá”, e “Informação a meu respeito/por esse meio é fácil de ser dada” virou “Informação a meu respeito/o rodeio é fácil de ser dada”. Quando terminei o falatório, um grupo de colegas executou uma coreografia ao som de Chitãozinho e Xororó. No final, o público, composto pelos professores parentes e amigos, ovacionou a apresentação e eu respirei aliviado. Naquele dia, aprendi que, às vezes, um aplauso compreensivo sobrepõe um desacerto inocente.

Cada faixa, uma narração. Todas na ponta da língua. Ou quase.

9 de out. de 2015

REC #8: Jamais confunda um cara de bigode

Começou pela capa a empatia pelo Volume 7 da coleção “Para gostar de ler”, da Ática. Nela, um cara de bigode e uniforme colegial puxava uma cadeira para se juntar a três crianças numa mesinha escolar. No canto, uma professora, atônita, assitia a cena. Naquele tempo, por conta de uma explosão hormonal titânica, eu tinha um bigode igual ao do cara da capa. Não, maior. E era o mais alto de minha classe também. Me sentia igual ao Jack daquele filme com Robin Willians. Deu para entender, não é? Bom, cada aluno ficou encarregado de apresentar uma das crônicas do livro. A minha foi “Confuso”, de Luís Fernando Veríssimo. Comecei falando que o nome da personagem era Consumidor e que ele tinha acordado confuso, vendo os eletrodomésticos da casa funcionando de forma estranha. O enredo é bem assim mesmo. Só que, no meio da apresentação, empolgado com meu desempenho, arrisquei uma manobra ousada. Em bom tom, usando meu melhor vocabulário:
— O Consumidor fica confuso e o leitor também. Ora, no final da página 30, aparecem três letras, entre parêntesis, sem nenhuma ligação com a história.
A professora franziu a testa e pegou um exemplar para conferir a origem da “confusão”. De fato, estavam lá as três letras entre parêntesis: (L. F. V.). Em casa, depois de escutar sobre minha apresentação heroica, meu pai, que também tinha um bigode respeitável, perguntou:
— Isso aqui não é a assinatura do autor não?
Pela primeira vez na vida, eu achei melhor continuar confuso.

A ilustração, à la Botero, era a minha cara. E meu bigode.

8 de out. de 2015

REC #7: Querida, rebobinei a fita

“Filme” para mim era sinônimo de “Sessão da Tarde” e “Cinema em Casa”. Ou seja, cresci decorando as falas dos mais-que-reprisados “Super Xuxa contra o Baixo Astral”, “Os Trapalhões e a Árvore da Juventude” e “A Lagoa Azul”. Vídeo cassete, só na casa de vovó. Era um bicho que menino não botava a mão. Só adulto mexia. E como cinema não era artigo de extrema necessidade, o vídeo de vovô servia mais para ver as gravações da Copa (e fazê-las, é claro) do que para assistir longas-metragens. Mas, um dia, por ocasião do aniversário de alguém, locaram algumas fitas. Dentre elas, a da comédia “Querida, estiquei o bebê”. Todo mundo sentou na frente da tevê. Adultos no sofá, crianças no colo e no chão. Lá para o final do filme, eu soltei essa:
— Ele vai pisar em todo mundo, mamãe!
— Vai não, filho, ele caminha devagar... — respondeu baixinho.
Outro expectador, concentrado nas falas, fez o clássico sinal de silêncio para mim. Onde já se viu assistir sem comentar? Eu insisti:
— E se ele pisar em alguém?
O outro expectador, impaciente com a minha conversa, apertou o controle remoto com força e virou-se para a gente:
— Espia o filme, depois vocês falam!
Mas não foi o botão da pausa que ele pressionou. O filme começou a voltar bem rápido. Percebendo o erro, o outro expectador apertou vários botões, agoniado. O vídeo vomitou a fita três vezes. Com os olhos cheios de lágrima, aproveitei a deixa:
— É igual no filme, adulto só faz besteira.

Momento exato no qual o pequeno Adam quase pisou em alguém.

7 de out. de 2015

REC #6: Qualquer carroça vira avião

Quando CD ainda era novidade e vinil era caríssimo, a alternativa encontrada por quem não queria deixar de escutar suas músicas favoritas foi a fita k7. Minha mãe tinha um rádio Philips que rodava as quadradinhas e uma caixa de sapatos cheia delas. A maioria de duplas sertanejas, mas integravam a coleção uma “Melhores da Bahia”, com “Os sucessos do carnaval 91”, e umas duas de Roberto Carlos, com os sucessos de sempre. A que eu mais gostava era uma de Leandro & Leonardo. E cantava “Pense em mim” o tempo todo. Cambaleando nos versos, engolindo estrofes, mas cantava. Há relatos de que na parte do “Uuu...”, depois do “Te amo! Te amo!” e antes do “Quero fazer você feliz”, eu cantava assim:
― Buuurro...
Não posso ratificar a veridicidade da performance. Mas, em reuniões familiares, tento elucidar o freestyle recorrendo ao contexto familiar da época. Morávamos com minha avó, que era feirante; a barraca de miudezas dela, no final do “sábado-feira”, era carregada de volta para casa numa carroça-de-burro; o carroceiro, para evitar bater em seu animal, gritava “Burro!”. Daí, veio inspiração para o improviso que fazia a alegria de minha platéia. Quando o destino é a felicidade, qualquer carroça vira avião.

6 de out. de 2015

REC #5: Tem Vaga-Lume na biblioteca

Quando entrei no ginásio, a série Vaga-Lume começou a fazer parte da minha rotina de leitura. Dividindo espaço com mangás/gibis, guias sobre Pokémon e revistas de mulher nua contrabandeadas. Toda vez que a gente dava cabo de um daqueles romances, a mando da professora de português, tinha que responder o “Suplemento de Trabalho”, questionário com umas quatrocentas perguntas sobre a história, cujo objetivo era “verificar” a leitura dos alunos. E dar uma nota. Se não valesse nota, ninguém lia. Na quinta série, quando saquei que o esquema era “um paradidático por unidade”, tratei de adiantar os suplementos. Fiz os dois restantes numa tarde e tirei aquilo da cabeça. Respondi tudo lendo só a sinopse da quarta capa e olhando as ilustrações do miolo. A terceira unidade começou e o Vaga-Lume da vez foi Tem lagartixa no computador, de Marcelo Duarte. Fiquei sossegado, já estava cumprida a tarefa. Mas, contrariando a lógica, a pró mandou a turma apresentar o enredo oralmente no dia da avaliação. O encarte de questões valeria apenas metade da nota. E agora? Mandei brasa:
— Tem lagartixa no computador conta a história de uns meninos que estavam trabalhando com um computador e descobriram que tinha uma lagartixa dentro...
Não é bem assim a história, lógico. Mas o embromation valeu alguns décimos no fim das contas. Nas férias daquele ano, por iniciativa própria (reforçada por gentis advertências do chinelo de mainha) li os dois romances cabulados. E mais alguns, da mesma coleção, que encontrei lá em casa. Ficava numa felicidade danada ao terminar. E quando, enfim, comecei a ler os clássicos (por obrigação, ou deleite), percebi a importância que aquelas leituras preliminares tiveram.

Meu exemplar autografado de "O Fantasma de Tio William" (série Vaga-Lume, 2005), 
de R. F. Lucchetti. E o respectivo "Suplemento de Trabalho".

5 de out. de 2015

REC #4: Os inocentes dispensam paraquedas

Estava no aniversário de um colega na primeira vez que escutei os Mamonas Assassinas. E nem liguei. Na verdade, não entendi nada da música, aquela paródia com sotaque luso falsificado do sucesso de Roberto Leal. Do “Vira Vira” eu só alcancei o “arrebita” e continuei comendo minhas lascas de galinha. Dias depois, na escola, fui apresentado a “Pelados em Santos”, cujo clipe em VHS foi gravado pelo filho da diretora. Aí, eu virei fã. Eu e todas as crianças do mundo. Bastava tocar a introdução de “Chopis Centis” (outra paródia, mas do The Clash) que a gurizada já começava a escarrar, cuspir, tossir e pular. As professoras manjaram logo e trataram de copiar uma fita K-7 para passar na sexta, dia da “recreação”. E foi num desses momentos recreativos que escutei, de uma menina bem mais velha, a versão de “Vira Vira” em português brasileiro. Não fiquei escandalizado porque, como Manuel, não fazia a mínima ideia do que era uma “suruba”, ou o que seria chegar “arregaçada” em casa. Mas achei graça na parte da cabrita. E isso bastava. Já estava adolescendo quando entendi toda a letra. O SBT fazia questão de reprisar as participações da banda no Domingo Legal e eu, na bestagem da idade, virei fã de novo. Não tirava as quatorze faixas do único álbum do quinteto de Guarulhos dos ouvidos. Recentemente, em outra festinha de aniversário, escutei uma variante bem-comportada do “Vira Vira”. Na minha frente, uma criança acompanhava, executando a letra original. E na ponta da língua! Acho que ela não entendia tudo que cantava, mas com certeza acha muito melhor a versão dos Mamonas.

Capa do disco homônimo de 1995

4 de out. de 2015

REC #3: A Invenção da Descoberta

(Para ler ao som de "O meu país", de Flávio José, ou "500 anos de Brasil", de Adelmário Coelho. Cada qual com seu igual.)

Em 1998, estava na moda falar dos 500 anos do Brasil. E também estava na moda falar de política. Ou melhor, estava na moda falar mal do presidente. Não como se faz hoje nas rinhas virtuais. Falava-se mal do presidente sem culpa, sem correr o risco de ser chamado de coxinha, PTralha, ou qualquer outro adjetivo segregador. Em suma, as discussões sobre política ainda não tinham se tornado um Ba-Vi ridículo. Pelo menos era isso que eu, com nove anos, via e ouvia. Na rua, todo mundo falava mal do presidente. Nas rádios, todo mundo falava mal do presidente. Na escola, todo mundo falava mal do presidente.  De repente, todos os problemas tinham se tornado maiores porque o Brasil completaria 500 anos. “500 anos de colonização”. “500 anos de escravidão”. “500 anos de subordinação”. E, de alguma forma, a culpa era toda do presidente. Na escola, os mestres e alunos não falavam de outra coisa. Perto das férias de junho, a professora de Estudos Sociais passou um paradidático chamado “500 anos”. Um infanto-juvenil sobre um pequeno viajante que, num barco de papel, visitava os principais eventos da história de nosso país. Como o tal livrinho é composto apenas por imagens, nossa tarefa foi recontar a história num pequeno texto. Só que eu saí de férias pensando apenas nos traques, nas bombas e nas delícias culinárias do São João. Faltando um domingo para acabar a mordomia, mainha lembrou de olhar minha agenda. Deu ruim. Tive que parir uma história por cima de chineladas e em poucas horas. Aí, fiz o que todo mundo fazia muito bem na época: falei mal do presidente. A culpa era toda dele. Do desterro do menino, passando pelo enforcamento de um Tiradentes que era a cara de Jesus e chegando ao assassinato do índio Galdino. Até citei Gabriel O Pensador, “Hoje eu tô feliz matei o presidente”. A professora ficou sem palavras. Recebi a nota mínima para passar e meu texto, por falta de atributo melhor, foi eleito o mais “inventivo”. Meses depois, o presidente, motivo de tudo (inclusive da redação), foi reeleito.

500 anos (FTD, 1998), de Regina Rennó