8 de dez. de 2015

REC Temporada 2/Ep. 3: Nas roupas, as rugas do tempo

Roupas e acessórios são como membros órfãos que tentam se ajustar às formas do nosso corpo. Tentam ser adotadas. Tentam ser corpo. O boné do careca ajusta-se às dobras da nuca, tentando, a todo custo, ser cabelo. A camiseta surrada do roqueiro, com a estampa do Ratos de Porão, tenta ser pelugem, resguardando o jovem músico das pancadas da guitarra elétrica. O tênis fuleiro da adolescente arriscar-se no asfalto quente e nas poças d’água, pois almeja ser pé. A calça jeans da funkeira quer ser pernas e bunda, assumindo as sinuosidades dos músculos. A luva do goleiro chega antes naquela bola indefensável, sonhando jamais ser descalçada pelo arqueiro-herói.
Quanto mais tempo passamos com uma meia, ou um anel, ou uma pulseira, mais o objeto acredita que faz parte de nós. Por isso, é tão difícil jogar fora aquela bermuda floral descosturada. Ou aquela pochete de seis bolsos que você ganhou no Inimigo Oculto da empresa. Ou aquele troço plástico de R$ 1,99 que te enforcava na sétima série. Ou aquele short confortabilíssimo que você usava na aula de Educação Física e só parou de vestir porque virou peneira. Ou aquela gravata que você comprou no casamento da prima e nunca mais desfez o nó. Ou aquele relógio Casio que dizia ser à prova d’água e, na primeira prova, provou toda a água da piscina.
Tive um relógio desses, presente de meu pai. Não tirava para nada. Um dia, a pulseira se rompeu no meio de um baba. Despedaçou mesmo, sem chance de remendo, ou troca. “O único jeito” — disse o relojoeiro na feira livre — “é trocar a caixa e eu não tenho a caixa original desse relógio.”.  Tive que ficar mais de um ano com a marca branca do relógio Casio que queria ser pulso. Foi aí que comecei a pensar nessas coisas. Comecei a entender que esses trecos vão e as pessoas ficam. Também as pessoas vão embora um dia e talvez fique em nossa memória apenas aquilo que elas queriam ser.
Não faço aqui, caro leitor, nenhuma apologia. Nem ao apego excessivo, nem ao consumismo. Sei que muitas roupas e objetos obsidiam os donos por serem filhas-únicas. Sei também que outras sequer experimentam a sensação de tocar a pele do proprietário, pois ficam congeladas em grandes caixas e armários à espera de um caridoso transplante em campanhas do agasalho. Falando nisso, o Natal se avizinha. Que tal dar chance pr’aquele casaco novinho tentar ser corpo, aplacando o frio de alguém?

Foto: Georgio Rios

7 de dez. de 2015

REC Temporada 2/Ep. 2: Trezentos e sessenta e cinco dias e quatro horas no banheiro

Nos anos noventa, nudez na tevê era a coisa mais comum do mundo. Tinha gente seminua nos programas infantis. Tinha gente seminua nos programas de auditório. Tinha gente seminua em programa de culinária. E tinha muita gente semi e nua na transmissão do carnaval. A Banheira do Gugu, atração do programa dominical quase homônimo, começava domingo à tarde e contava com uma multidão de “artistas” seminus pegando sabonete, se pegando e pagando o máximo de partes do corpo possível. Mas a coisa toda não chamava minha atenção. Eu via, achava engraçado às vezes. Até imitava o apresentador: “Valendooo!”, mas não maldava. De verdade. Só que o tal quadro perdurou. Perdurou. Perdurou. Tempo suficiente para minha voz ficar mal sintonizada. Eclodiam as primeiras erupções em minha cara quando, num domingo, procurando qualquer coisa na carteira de meu pai, uma moeda talvez, encontrei um objeto que mudaria para sempre o rumo da humanidade. Pelo menos na minha perspectiva. Um calendário de mulher nua. A foto não era das mais explícitas, eu saberia depois. Mas, para um saco de hormônios de 11 anos e meio, de olhos curiosos e que ficava corado com a seção de lingerie da Revista Hermes, aquele retrato (com os meses e dias de 1998 no fundo) era o ápice da pornografia impressa. Eu já sabia (mais ou menos) como as engrenagens rodavam neste departamento, tive aulas esclarecedoras no colégio e cantava de cor os clássicos Coca-Cola Espumante e Mariazinha Danada. Mas nem as aulas, nem a cantoria desbocada faziam aumentar o volume da cueca Zorba no embalo do coração que quase saíra pela boca. Aquele calendário, sim. Foi aquela foto que mudou a forma como eu folheava os catálogos, via a Banheira do Gugu e, é claro, encarava o sexo oposto.

Luiza Ambiel, Tiririca (dos tempos de Florentina de Jesus) e a Banheira.
Créditos da imagem: Veja.

6 de dez. de 2015

REC Temporada 2/Ep. 1: Uma hora sem controle

Ao brother Yargo, que também fez parte dessa história

Pra maioria dos meninos de Riachão, no decorrer dos anos noventa, o domingo era um dia dedicado a liberdade. Andava-se de bicicleta livremente na Praça da Matriz e na Landulfo Alves. Jogava-se gude no jardim do Fórum e nas ruas sem calçamento dos bairros. Aqui e ali, batia-se o bom e velho babinha descalço. E, é claro, jogava-se videogame. Correção: jogava-se MUITO videogame nas locadoras que se espalhavam como ninhos de formigas pela cidade. Não é exagero dizer que, no centro, tinha uma em cada esquina. E eram lugares mágicos. Televisões de tubo enfileiradas, duas cadeiras plásticas na frente de cada tela, musiquinhas repetitivas ao fundo, botões de joysticks sendo massacrados sem qualquer cerimônia e garotos ferozes disputando quem latia mais alto. Mas tinha um tipo bem comum nas locadoras, que tirava a vontade de jogar de qualquer um: o Piru. Sempre tinha um Piru. Ou dois. Ou três. Ou um bando inteiro esperando o sleep timer da tevê avisar que faltava um minuto:
— Ei, moço! Apareceu o tempo! E depois é eu.
— Né nada, é eu! — grugulejava outro Piru batendo no peito com força.
— Né nada, é eu! Se sai! — grugulejava outro Piru, fazendo a clássica posição de “vai encarar?”.
— Né nada, é eu! Já avisei! — grugulejava outro Piru que, mesmo tendo chegado por último, dizia que era dele a vez só para tumultuar.
— Oxe... E eu não jogo não, é? — grugulejava o Piru mais comum de todos, que nem iria jogar, mas como fazer barulho e dar pitaco era de graça... Eu me incluía nessa classe.
E toda essa confusão para colocar “um real de tempo”, uma hora exata. Ou cinquenta centavos, meia hora. Mas era naquele tempo que aconteciam as brigas de rua mais emocionantes, as partidas de futebol mais acirradas, as corridas de carro mais disputadas, as voltas de skate mais radicais do mundo. Mesmo depois que a tevê desligava, sempre dava tempo de ir mais uma luta, ou terminar uma parelha, ou acabar o jogo. Sempre dava tempo de se divertir. Jogando, ou piruando. No controle, ou na arquibancada. Sempre dava tempo de ser livre, de ser criança.

Momento raro: uma locadora sem Piru. Créditos da imagem: PlayReplay

12 de out. de 2015

REC #10 (PARTE 2): O Super-Homem Trapalhão

Sempre gostei de super-heróis. Até os sete anos, eu queria ser um super-herói. Tipo aquele menino trajado de Flash do filme “A creche do papai”. Num dia, eu era o Lion dos ThunderCats e saía quebrando as plantas da casa de vovó com a minha espada de brinquedo. Noutro, eu era o Black Kamen Rider, de cinto e cueca pulando pelo quintal. 
— Anda, Ricardo! Vem tomar banho!
— Eu não sou Ricardo, sou Jaspion! — e começava a lutar com o MacGaren invisível.
Houve um tempo em que, na hora do almoço, assistíamos a repises d’Os Trapalhões. Eu amava um episódio no qual Didi, interpretando Superman, vive situações hilárias: voa pelos céus e, como na cena clássica, é confundido com pássaro, avião, foguete e, por fim, "um palhaço voando"; não consegue brecar e quebra uma janela; e quando disfarçado de Clark Kent, é chamado de "Super-homem" por todo mundo. Foi daí que me veio a ideia de ser o próprio homem de aço. "Ora, se Didi Mocó pode, eu também posso.". Improvisei uma capa com uma toalha de banho e vesti uma cueca por cima do calção vermelho do uniforme da escola. Subi numa cadeira da cozinha, escalei o tanque de lavar roupa e alcancei uma mesa bem alta da área de serviço. De lá, fiz o primeiro e último voo de minha carreira heroica. Com um galo na testa e o queixo ferido, descobri qual era a minha kryptonita, sem precisar enfrentar Lex Luthor.

Cena do humorístico Os Trapalhões, episódio "Didi Super-herói"

11 de out. de 2015

REC #10 (PARTE 1): Meninos de pés descalços

O doze de outubro era um dia de farra em minha rua. Enquanto umas crianças corriam pelo passeio do fórum, rebocando seus carrinhos ou acalentando bonecas, outras chutavam bolas coloridas no jardim das algarobas. Dona Tereza, vendedora de doces e gudes, quase não conseguia atender a tantos miúdos na janela de sua casa. Inclusive eu, que sempre ganhei presente no dia das crianças. Meus pais se esforçavam para comprar algum brinquedo, mesmo simples. Em 95, ganhei um tanque de guerra movido a quatro pilhas de um tamanho tão especial que meu pai não achou para comprar. Com o motor desligado, as esteiras, por onde deveriam correr as rodas, não se mexiam. Nem para trás, nem para frente. Triste, com os olhos inundados, fiquei lá admirando o caminhão-estátua. Foi quando um amigo meu chegou. Ele sempre ia lá em casa puxando seu carrinho da polícia.
— Tu ganhou esse tanque de guerra?! — perguntou o amigo fazendo festa.
— Foi, mas não anda não. Painho não achou a bateria dele.
— Tem nada não, dá para brincar com ele parado!
— Tu também ganhou um carro?
— Já tenho um carro, ganhei no ano passado.
Olhei para o carrinho da polícia numa ponta do barbante. Na outra ponta, havia um menino de pés descalços e enlameado dos pés à cabeça, vibrando com o mesmo tanque de guerra pelo qual eu chorei. Não lembro o que senti naquele momento. Vergonha, eu acho. Enquanto eu ganhava um presente diferente a cada dia das crianças (aniversário e Natal), meu amigo ganhava o mesmo todo ano. Quantas crianças da minha rua não ganhavam nem isso e estavam lá no passeio puxando caixas de sapato? Todo mundo feliz da vida.
— Bora brincar lá fora? Tá todo mundo lá.
— Bora!
Meus olhos secaram e eu fui brincar na rua. Só voltei no final da noite, de pés descalços e enlameado dos pés à cabeça.

Da série Chapolim, episódio: O menino que jogava fora seus brinquedos

10 de out. de 2015

REC #9: De cowboy, poeta e louco, todo mundo tem um pouco

Desde bem pequeno, eu decorava poemas para recitar em datas comemorativas da escola. Tinha o poema do dia da pátria, o poema do dia do índio, o do dia das mães. Tinha até um poema para o dia do silêncio. Em 99, no dia do folclore, resolveram fazer uma “festa do boi”. Era uma miscelânea de baile de rodeio, festival de Parintins e forró de vaquejada. A escola ficou cheia de adornos rurais e todo tipo de apetrecho relacionado a tríade boi-cavalo-gente. Os corredores pareciam um cenário de faroeste. A bem da verdade, mais para Roy Rogers do que para Django. Alimentando o velho costume, fui decorar alguns versos para recitar na comemoração. Minha mãe gravou uma fita com rimas de Marco Brasil, famoso locutor de rodeio. Decorei um “gigante” que abria o primeiro CD “Bailão do Peão”. Na hora da apresentação, disfarçado de Tex Willer, eu esqueci alguns trechos do repente. Para completar, eu tinha aprendido “de ouvido”. Sem uma banda de papel como referência, “Não sou aberto a arte de montar” virou “Não vou a berro da arte de montar”, “Com meu jeito simples sigo a narrar” virou “Com meu jeito simples de guanarrá”, e “Informação a meu respeito/por esse meio é fácil de ser dada” virou “Informação a meu respeito/o rodeio é fácil de ser dada”. Quando terminei o falatório, um grupo de colegas executou uma coreografia ao som de Chitãozinho e Xororó. No final, o público, composto pelos professores parentes e amigos, ovacionou a apresentação e eu respirei aliviado. Naquele dia, aprendi que, às vezes, um aplauso compreensivo sobrepõe um desacerto inocente.

Cada faixa, uma narração. Todas na ponta da língua. Ou quase.

9 de out. de 2015

REC #8: Jamais confunda um cara de bigode

Começou pela capa a empatia pelo Volume 7 da coleção “Para gostar de ler”, da Ática. Nela, um cara de bigode e uniforme colegial puxava uma cadeira para se juntar a três crianças numa mesinha escolar. No canto, uma professora, atônita, assitia a cena. Naquele tempo, por conta de uma explosão hormonal titânica, eu tinha um bigode igual ao do cara da capa. Não, maior. E era o mais alto de minha classe também. Me sentia igual ao Jack daquele filme com Robin Willians. Deu para entender, não é? Bom, cada aluno ficou encarregado de apresentar uma das crônicas do livro. A minha foi “Confuso”, de Luís Fernando Veríssimo. Comecei falando que o nome da personagem era Consumidor e que ele tinha acordado confuso, vendo os eletrodomésticos da casa funcionando de forma estranha. O enredo é bem assim mesmo. Só que, no meio da apresentação, empolgado com meu desempenho, arrisquei uma manobra ousada. Em bom tom, usando meu melhor vocabulário:
— O Consumidor fica confuso e o leitor também. Ora, no final da página 30, aparecem três letras, entre parêntesis, sem nenhuma ligação com a história.
A professora franziu a testa e pegou um exemplar para conferir a origem da “confusão”. De fato, estavam lá as três letras entre parêntesis: (L. F. V.). Em casa, depois de escutar sobre minha apresentação heroica, meu pai, que também tinha um bigode respeitável, perguntou:
— Isso aqui não é a assinatura do autor não?
Pela primeira vez na vida, eu achei melhor continuar confuso.

A ilustração, à la Botero, era a minha cara. E meu bigode.

8 de out. de 2015

REC #7: Querida, rebobinei a fita

“Filme” para mim era sinônimo de “Sessão da Tarde” e “Cinema em Casa”. Ou seja, cresci decorando as falas dos mais-que-reprisados “Super Xuxa contra o Baixo Astral”, “Os Trapalhões e a Árvore da Juventude” e “A Lagoa Azul”. Vídeo cassete, só na casa de vovó. Era um bicho que menino não botava a mão. Só adulto mexia. E como cinema não era artigo de extrema necessidade, o vídeo de vovô servia mais para ver as gravações da Copa (e fazê-las, é claro) do que para assistir longas-metragens. Mas, um dia, por ocasião do aniversário de alguém, locaram algumas fitas. Dentre elas, a da comédia “Querida, estiquei o bebê”. Todo mundo sentou na frente da tevê. Adultos no sofá, crianças no colo e no chão. Lá para o final do filme, eu soltei essa:
— Ele vai pisar em todo mundo, mamãe!
— Vai não, filho, ele caminha devagar... — respondeu baixinho.
Outro expectador, concentrado nas falas, fez o clássico sinal de silêncio para mim. Onde já se viu assistir sem comentar? Eu insisti:
— E se ele pisar em alguém?
O outro expectador, impaciente com a minha conversa, apertou o controle remoto com força e virou-se para a gente:
— Espia o filme, depois vocês falam!
Mas não foi o botão da pausa que ele pressionou. O filme começou a voltar bem rápido. Percebendo o erro, o outro expectador apertou vários botões, agoniado. O vídeo vomitou a fita três vezes. Com os olhos cheios de lágrima, aproveitei a deixa:
— É igual no filme, adulto só faz besteira.

Momento exato no qual o pequeno Adam quase pisou em alguém.

7 de out. de 2015

REC #6: Qualquer carroça vira avião

Quando CD ainda era novidade e vinil era caríssimo, a alternativa encontrada por quem não queria deixar de escutar suas músicas favoritas foi a fita k7. Minha mãe tinha um rádio Philips que rodava as quadradinhas e uma caixa de sapatos cheia delas. A maioria de duplas sertanejas, mas integravam a coleção uma “Melhores da Bahia”, com “Os sucessos do carnaval 91”, e umas duas de Roberto Carlos, com os sucessos de sempre. A que eu mais gostava era uma de Leandro & Leonardo. E cantava “Pense em mim” o tempo todo. Cambaleando nos versos, engolindo estrofes, mas cantava. Há relatos de que na parte do “Uuu...”, depois do “Te amo! Te amo!” e antes do “Quero fazer você feliz”, eu cantava assim:
― Buuurro...
Não posso ratificar a veridicidade da performance. Mas, em reuniões familiares, tento elucidar o freestyle recorrendo ao contexto familiar da época. Morávamos com minha avó, que era feirante; a barraca de miudezas dela, no final do “sábado-feira”, era carregada de volta para casa numa carroça-de-burro; o carroceiro, para evitar bater em seu animal, gritava “Burro!”. Daí, veio inspiração para o improviso que fazia a alegria de minha platéia. Quando o destino é a felicidade, qualquer carroça vira avião.

6 de out. de 2015

REC #5: Tem Vaga-Lume na biblioteca

Quando entrei no ginásio, a série Vaga-Lume começou a fazer parte da minha rotina de leitura. Dividindo espaço com mangás/gibis, guias sobre Pokémon e revistas de mulher nua contrabandeadas. Toda vez que a gente dava cabo de um daqueles romances, a mando da professora de português, tinha que responder o “Suplemento de Trabalho”, questionário com umas quatrocentas perguntas sobre a história, cujo objetivo era “verificar” a leitura dos alunos. E dar uma nota. Se não valesse nota, ninguém lia. Na quinta série, quando saquei que o esquema era “um paradidático por unidade”, tratei de adiantar os suplementos. Fiz os dois restantes numa tarde e tirei aquilo da cabeça. Respondi tudo lendo só a sinopse da quarta capa e olhando as ilustrações do miolo. A terceira unidade começou e o Vaga-Lume da vez foi Tem lagartixa no computador, de Marcelo Duarte. Fiquei sossegado, já estava cumprida a tarefa. Mas, contrariando a lógica, a pró mandou a turma apresentar o enredo oralmente no dia da avaliação. O encarte de questões valeria apenas metade da nota. E agora? Mandei brasa:
— Tem lagartixa no computador conta a história de uns meninos que estavam trabalhando com um computador e descobriram que tinha uma lagartixa dentro...
Não é bem assim a história, lógico. Mas o embromation valeu alguns décimos no fim das contas. Nas férias daquele ano, por iniciativa própria (reforçada por gentis advertências do chinelo de mainha) li os dois romances cabulados. E mais alguns, da mesma coleção, que encontrei lá em casa. Ficava numa felicidade danada ao terminar. E quando, enfim, comecei a ler os clássicos (por obrigação, ou deleite), percebi a importância que aquelas leituras preliminares tiveram.

Meu exemplar autografado de "O Fantasma de Tio William" (série Vaga-Lume, 2005), 
de R. F. Lucchetti. E o respectivo "Suplemento de Trabalho".

5 de out. de 2015

REC #4: Os inocentes dispensam paraquedas

Estava no aniversário de um colega na primeira vez que escutei os Mamonas Assassinas. E nem liguei. Na verdade, não entendi nada da música, aquela paródia com sotaque luso falsificado do sucesso de Roberto Leal. Do “Vira Vira” eu só alcancei o “arrebita” e continuei comendo minhas lascas de galinha. Dias depois, na escola, fui apresentado a “Pelados em Santos”, cujo clipe em VHS foi gravado pelo filho da diretora. Aí, eu virei fã. Eu e todas as crianças do mundo. Bastava tocar a introdução de “Chopis Centis” (outra paródia, mas do The Clash) que a gurizada já começava a escarrar, cuspir, tossir e pular. As professoras manjaram logo e trataram de copiar uma fita K-7 para passar na sexta, dia da “recreação”. E foi num desses momentos recreativos que escutei, de uma menina bem mais velha, a versão de “Vira Vira” em português brasileiro. Não fiquei escandalizado porque, como Manuel, não fazia a mínima ideia do que era uma “suruba”, ou o que seria chegar “arregaçada” em casa. Mas achei graça na parte da cabrita. E isso bastava. Já estava adolescendo quando entendi toda a letra. O SBT fazia questão de reprisar as participações da banda no Domingo Legal e eu, na bestagem da idade, virei fã de novo. Não tirava as quatorze faixas do único álbum do quinteto de Guarulhos dos ouvidos. Recentemente, em outra festinha de aniversário, escutei uma variante bem-comportada do “Vira Vira”. Na minha frente, uma criança acompanhava, executando a letra original. E na ponta da língua! Acho que ela não entendia tudo que cantava, mas com certeza acha muito melhor a versão dos Mamonas.

Capa do disco homônimo de 1995