10 de out de 2015

REC #9: De cowboy, poeta e louco, todo mundo tem um pouco

Desde bem pequeno, eu decorava poemas para recitar em datas comemorativas da escola. Tinha o poema do dia da pátria, o poema do dia do índio, o do dia das mães. Tinha até um poema para o dia do silêncio. Em 99, no dia do folclore, resolveram fazer uma “festa do boi”. Era uma miscelânea de baile de rodeio, festival de Parintins e forró de vaquejada. A escola ficou cheia de adornos rurais e todo tipo de apetrecho relacionado a tríade boi-cavalo-gente. Os corredores pareciam um cenário de faroeste. A bem da verdade, mais para Roy Rogers do que para Django. Alimentando o velho costume, fui decorar alguns versos para recitar na comemoração. Minha mãe gravou uma fita com rimas de Marco Brasil, famoso locutor de rodeio. Decorei um “gigante” que abria o primeiro CD “Bailão do Peão”. Na hora da apresentação, disfarçado de Tex Willer, eu esqueci alguns trechos do repente. Para completar, eu tinha aprendido “de ouvido”. Sem uma banda de papel como referência, “Não sou aberto a arte de montar” virou “Não vou a berro da arte de montar”, “Com meu jeito simples sigo a narrar” virou “Com meu jeito simples de guanarrá”, e “Informação a meu respeito/por esse meio é fácil de ser dada” virou “Informação a meu respeito/o rodeio é fácil de ser dada”. Quando terminei o falatório, um grupo de colegas executou uma coreografia ao som de Chitãozinho e Xororó. No final, o público, composto pelos professores parentes e amigos, ovacionou a apresentação e eu respirei aliviado. Naquele dia, aprendi que, às vezes, um aplauso compreensivo sobrepõe um desacerto inocente.

Cada faixa, uma narração. Todas na ponta da língua. Ou quase.

Um comentário:

Marielza Ferreira disse...

Filho, a escola Santa Marta te preparou para ser o que é hoje. Fico gratificada em saber que esses momentos te fizeram tanto bem que hoje és um poeta! Parabéns!