22 de ago de 2016

REC Temporada 2/Ep. 9: A gaveta das memórias é um negócio de família

Quando eu ainda morava na Rua do Cemitério, gostava de mexer nas gavetas dos mais velhos. Minhas gavetas eram sempre as mesmas: duas de roupas, uma de livros da escola, uma com jogos de tabuleiro, que nunca aprendi a jogar, e uma que servia como cemitério de bonecos e ferro-velho de carrinhos. Uma chatice. Criança não tem o que esconder em gavetas. Afinal, ainda não acumulou um passado em papéis, fotos e cartas.
As gavetas dos adultos tinham o jeitão deles. Meu pai guardava, numa gaveta do guarda-roupa, um montão de papéis da época do estágio, alguns classificadores com atividades e documentos que ele arquivava com cuidado. Tinha também alguns álbuns de figurinhas incompletos, fotos da época da juventude, revistas de mulher pelada e livros de disciplinas que já tinham saído da grade curricular quando ingressei na escola. Por fim, tinha umas cadernetas escolares, de controle de presença, que eu gostava de folear. No cabeçalho, lia-se “Centro Educacional Cenecista N.ª S. da Conceição”.
— Vovó, o que é Cenecista?
— Cenecista? Pergunte a seu pai.
— Papai, o que é Cenecista?
— Cenecista? Ah, pergunte a sua mãe!
E eu entrava numa daquelas gavetas de perguntas que enfiam as crianças até elas se convencerem de que não foi uma boa ideia perguntar.
Minha mãe guardava, num compartimento da estante da sala, um monte fotonovelas, almanaques, revistas de horóscopo, de moda e de fofoca da vida de artistas que eu não sabia o nome. Tinha também uma coleção de livros clássicos e alguns religiosos que ela deve ter comprado nos tempos de Pastoral da Juventude. No guarda-roupa, ela tinha uma cabine cheia de cosméticos que despedaçavam com um simples toque. Aprendi que era melhor ficar longe dessa última gaveta. Tomar duas chineladas por causa de um vidro de esmalte tão sensível não era legal.
As gavetas mais legais eram as de minha avó. Ela tinha uma máquina de costurar com quatro. Cartas escritas à mão com uma caligrafia linda, cordões, linhas, agulhas de vários tamanhos, tesourinhas de unha (que envergavam as pernas e cabiam numa caixinha retangular), bilros, prendedores de cabelo, canivete enferrujado, anéis de prata, terços de cores variadas, livrinho de catecismo, relógio magnético, moedas e cédulas antiquíssimas, caderno de debuxos, minidicionário (bem pequeno mesmo, preso a um chaveiro) e todo tipo de retalho de memória que ela conseguia dobrar e enfiar naquelas quatro gavetas.
Quando mudei pra Bela Vista e vi a quantidade de coisas que levávamos na bagagem, percebi que todo adulto lá de casa colecionava, a sua maneira, um pedaço de história. Coletâneas de recordações mais ou menos como esta que faço aqui no blog. Talvez esse gosto por objetos do passado seja uma coisa hereditária. Talvez seja uma coisa exclusiva nossa, um trato tácito de não apagar o que passou, family business.

Capa da fotonovela "Sétimo Céu" (Bloch, 1982)
Esta e outras raridades você encontra AQUI

9 de abr de 2016

Lançamento Duplo

"Trilogia do asfalto" de Dênisson Padilha Filho e "O pênalti perdido" de Marcus Borgón, ambos pela P55. Na Tropos, Rua Ilhéus, 214, Parque Cruz Aguiar, Rio Vermelho, Salvador, Bahia, Brasil. Terça-feira, 19 de abril de 2016 às 19:00.


2 de abr de 2016

Quando eu era

Quando todo menino roubava manga.
Quando todo menino jogava bola.

Quando todo menino do mundo
Gostava do Xou da Xuxa.

Quando todas as árvores da rua eram vivas.
Quando era viva a velha que vendia
Doce na porta da rua.

Quando a revista de mulher nua ainda tinha
Mulher nua de verdade.

Quando todas as esperanças eram moças
E faziam graça na frente do Beira Rio.

Eu era mais um menino entre mangas,
Canela suja, assistindo tevê.

Eu era mais uma árvore da rua
Fazendo sombra pra velhinha do doce.

Eu era mais uma hora no banheiro
Na companhia de uma modelo peluda.

Eu era a esperança, jovem,
Comprando balas no Bar de Seu Neli.

Propaganda do delicioso caramelo Nestlé.
Mais curiosidades AQUI

25 de mar de 2016

REC Temporada 2/Ep. 8: Batendo perna no picadeiro da vida

No meio de um jogo de gude, um menino chegou avisando que tinha circo na cidade.
— O moço ta dando ingresso a todo mundo! Bó lá, bó lá!
Quebramos a praça do fórum, deixando as gudes e sandálias pra trás, e saímos correndo, uns quinze, na direção do Campo da Nação onde se arma circo até hoje. No meio da lona, dos ferros e das tábuas que virariam arquibancadas, estava o palhaço. Seco, alto e com uma pintura quase desbotada, fazia todo tipo de galhofa pra uns oito meninos que já estavam lá antes de minha manada chegar em busca de entradas pro espetáculo daquela noite.
— Quem quer ingresso?
— Eu!
— Quem quer entrar de graça?
— Eu!
— Quem faz xixi na cama?
— Eu!
Risadas, risadas e mais risadas. Tudo de verdade, criança não ri pra agradar ninguém.
— A gente vai dar uma volta na cidade. Quando eu disser: Hoje tem palhaçada? Vocês respondem: Tem sim-senhor! 
— Hoje tem marmelada?
— Tem sim-senhor!
— Hoje tem trapezistas, malabaristas, equilibristas e o globo da morte! Não percam!
Percorremos a cidade toda no encalço do palhaço. Meninos e meninas se juntavam ao grupo por livre e espontânea vontade. Quando alcançamos da igrejinha da Bela Vista, já éramos uns quarenta. Por fim, ganhei meu ingresso. Cheguei em casa com a canela cinza e um sorriso cheio de dentes amarelos. Minha mãe estava na sala, cortando isopor. 
— Umbora, mai-nha! Vai ser bom!
— Chame seu pai, eu não gosto se circo.
Assim eu fiz:
— Ô, papai, bora...
— Mais qua! Gastar dinheiro com circo. A gente já vive num circo.
— Mas eu ganhei o ingresso ajudando o palhaço, ó aqui!
— Gastou canela à toa. Aqui diz: desconto na entrada. Nada é de graça nessa vida.
Não chorei mais porque, assim que o espetáculo começou, pude ouvir tudo da casa onde a gente morava. Só depois de grande entendi o que meu pai quis dizer. Antes de gastar canela é preciso usar a cabeça pra não ser feito de palhaço por aí.

Capa do VHS de um cráássico da Sessão da Tarde:
Os Saltimbancos Trapalhões (1981)

23 de mar de 2016

REC Temporada 2/Ep. 7: Julgando um livro pelo riso

O que aquele livro da capa roxa tinha de tão especial? Meus amigos e eu não sabíamos. Os meninos mais velhos apreciavam a “obra proibida” juntos. Em algum canto, longe dos olhares das professoras, liam um trecho. Depois, riam e faziam cumprimentos legais com as mãos. Nós, pirralhos diante de lancheiras abertas, só observávamos. Uma vontade danada de fazer parte daquela conversa. Mas que porra de livro era aquela? Nenhum de nós ousava encostar pra perguntar. Era cascudo e beliscão na certa. Fora a pirraça eterna.
— Do que esses menino tanto ri?
— Sei não, Tuca.
— Eu queria rir também.
— Meu tio fala coisa engraçada...
— Esse livro deve ser bom.
— Melhor do que a cartilha?
— A cartilha é engraçada? 
— Sei não, Tuca. Tu acha?
Conversar com Tuca era isso aí. Eu nunca sabia de nada e ele sempre falando que queria fazer as coisas que só os meninos grandes podiam.
No ano seguinte, a gente teve o primeiro contato com a biblioteca. A professora inventou uma maratona de leitura. Ganhava quem lesse mais obras no tempo que ela determinou. A meninada correu pras estantes de livros fininhos. Não sobrou um Chapeuzinho Vermelho pra contar história. Foi aí que, numa prateleira repleta de Vaga-lumes, achei um exemplar do livro da capa roxa.
— Será que é o mesmo?
— Deve ser.
— Deixa eu ler?
— Depois de mim.
Atrapalhada com tanto menino pra pegar livro, a bibliotecária mudou a estratégia:
— Vocês levam os livros e a professora passa uma lista de empréstimo na sala.
Não teve lista certa. Ficou tudo na confiança. Quem, naquela idade, roubaria um livro? Corri pra casa do jeito que minhas banhas permitiram. Mal cheguei, comecei a ler. Começando pelo título, que eu nem tinha decodificado na escola: Antologia do Conto Adulto.
Na manhã seguinte:
— E aí? Leu?
— Li. 
— É engraçado?
— Não. 
— É de terror?
— Não.
— E o que essa peseta tem então nesse livro da capa roxa? 
— Tem umas histórias de ousadia...
— Uia... — disse Tuca naquele tom ameaçador que menino faz quando sente inveja da estripulia que outro fez.
— E tem um monte de palavra que eu não sei o que é.
Fiz a devolução e fingi que não tinha lido pra não me encrencar. Peguei um exemplar manjado d'O Escaravelho do Diabo e desisti da maratona na primeira semana. Não lembro de nenhuma história do tal livro da capa roxa. Nem sempre livros especiais tem algo de especial em suas páginas.
Jovens Contos Eróticos (Vários Autores, Brasiliense, 1987)

20 de mar de 2016

REC Temporada 2/Ep. 6: Quando o medo bota ovo

O pior medo que eu tive no tempo de criança vivia dentro de minha cabeça. Em algum lugar, entre o medo do escuro e o medo de lobisomem, em alguma porta entre a do medo de careta e a do medo de doido, em alguma casa entre o castelo do conde Drácula e o número 71 da vila do Chaves. Lá, residia o medo da morte. Monstro primitivo que não devora crianças que não dormem cedo. Não, ele fica escondidinho até a gente se deparar com a perda de um ente querido. Um cachorro atropelado, um tio-avô centenário que perdeu as forças, uma vizinha que ficou careca e depois foi morar com Deus.
— Ela morreu?
— Morreu, meu filho. Agora, ela mora no céu.
— Eu queria morar no céu. 
— Bate na boca, menino!
— O céu é ruim?
— Não, é bom... um lugar bem bonito.
— Então...
— Mas só entra lá quem Papai do céu chama.
Ninguém me convidava pros aniversários. Vovó nunca deixou eu morar na casa dela. E se Papai do Céu não me quiser lá também? Vovó conversa com ele mais do que eu. E agora? Vou ficar pra semente? E se eu morrer sem o convite? Vou ficar de camisa preta, assombrando o povo que nem Alexandre daquela novela?
— E quem não vai pro céu quando morre?
— Vai pro inferno, morar com o bicho de olho de fogo.
— O diabo?
— Olha a boca!
Eu não podia falar o nome do contrário de Deus, mas Tião Galinha falava o tempo todo na novela. Era "diabinho" pra cá, "cramunhão" pra lá. E quando o pobre lavrador galináceo morreu enforcado numa cela, minha mãe me tapou os olhos.
— Olha isso não! 
Fiquei curioso. Aquele medo, que andava escondido dentro da cabeça, decidiu sair e coçar, como uma pulga, atrás da orelha.
— Titia?
— Oi?
— Como Tião Galinha morreu?
— Foi assim — e a tia juntou 3 medos num: careta, cara de doido e jeito de morto.
Chorei de medo. Medo do monstro mais primitivo, daquele que continua assombrando os homens até que eles não tenham mais uma vida pra temer. O medo de sentir medo é mais forte que o medo do fim.

Tereza Seiblitz (Joaninha), a Galinha e Osmar Prado (Tião)

Bônus: Quem quiser "fechar o corpo" com um Diabinho na Garrafa, basta clicar AQUI pra ver a receita completa na voz inconfundível de Antônio Fagundes (Coronel Zé Inocêcio).

19 de mar de 2016

REC Temporada 2/Ep. 5: Cada pessoa escolhe aquilo lhe acolhe

Meus pais eram católicos. Bem católicos. Ainda são. Por isso, quando meu pai comprou um som com tocador de CD, vários cantores de igreja começaram a entoar seus hinos lá em casa. O bom dessa época é que a gente via menos televisão e escutava mais música. A ruim é que eu não tinha grana pra comprar meus próprios CDs. Aí, o jeito era rezar pra que meu pai escolhesse “O Grande Encontro”, ou “O Terço Toca Raul”, ou qualquer um do Pink Floyd. Eu tinha umas fitinhas de punk rock e reggae, que consegui com uns brothers da Rua do Cemitério, mas não podia ouvir na presença dos mais velhos.
— Você pode escutar o que quiser. A escolha é sua. Mas quando eu estiver em casa, quem escolhe o CD sou eu. Combinado?
Tinha como descombinar?
Um dia, meio injuriado com a vida, coisa que acontecia toda hora na pré-adolescência, olhei pra capa de um daqueles CDs das Paulinas e soltei essa pérola escrota:
— Esse cara é viado.
— Oxe, viado? — Respondeu minha mãe franzindo a testa.
— Olha esse arco-íris na capa do CD — respondi em tom de afronta mesmo, eu não tinha noção do perigo.
— Dark Side of the Moon tem um arco-íris na capa, não tem? — Disse meu pai, tropeçando no inglês.
— Mas ali...
— E outra: se ele for viado é da conta de quem? — Disse a mãe encerrando o assunto e aumentando o volume.
O CD com o arco-íris na capa (e um cara de jaqueta jeans e crucifixo no pescoço) ainda está lá na estante da sala. Meus pais já não curtem um som como naquela época, por falta de tempo. Ou por aquele desinteresse por coisas “menos importantes” que a idade traz. Mas continuam ensinando os mais novos a não se meter na escolha e no jeito dos outros. Combinado?

Jonny, A força da oração, Paulinas
Mais informações AQUI

29 de fev de 2016

REC Temporada 2/Ep. 4: Ninguém mascava chiclete até acabar o gosto

Todo mundo queria as figurinhas. Aquelas dos dinossauros que vinham na bala amarga. Aquelas que vinham no chiclete e que colava no caderno, raspando com a unha do polegar. Aquela outra que vinha no pacote de biscoito e não perdia o cheiro e o visgo do biscoito nem a pau. E aquela outra que vinha no chocolate e nossa mãe usava pra marcar livro. Ninguém queria o salgadinho. Ninguém ligava pro chiclete, ou pra a bala amarga, ou pro chocolate. Aliás, o chocolate todo mundo queria. Mas eu não dividia.
Enfim, quando os poquemons invadiram como vikings nossas vidas, saqueando nossas aulas de geografia, queimando nosso tempo livre e pilhando toda a grana que pingava em nossos bolsos, um fabricante de petiscos ensacados fez o imenso favor de lançar cartinhas colecionáveis (jogáveis e brigáveis) dos monstrinhos que apareciam no programa de Eliana de segunda a sexta.
— Pai, me dá cinquenta centavos?
— Cinquenta centavos? Tu quer isso tudo pra quê?
Isso tudo. Era uma dinheirama da porra mesmo. Dava pra comprar cinco geladinhos de Dona Tereza, ou uma acarajé, ou um misto no São João, ou um cachorro-quente na quermesse de São Roque, ou um refi em lata, ou um salgadinho que vinha com figurinha colecionável (jogável e brigável).
— Mas é cada uma! Salgadinho! Tu nem gosta de salgadinho!
Isopor com sal não é minha praia até hoje. Mas, e a figurinha?
— Eu como salgadinho sim!
Só comprei um. E não consegui engolir todas aquelas conchinhas com cheiro de vômito. Naquele período, enchi a pança mesmo foi com os apresuntados da cantina da escola. E dormi como o Snorlax da única cartinha que eu tive.

Card Pokémon Snorlax (Elma Chips, 2000). Minha cara, não?
Veja essa e outras curiosidades aqui.

8 de dez de 2015

REC Temporada 2/Ep. 3: Nas roupas, as rugas do tempo

Roupas e acessórios são como membros órfãos que tentam se ajustar às formas do nosso corpo. Tentam ser adotadas. Tentam ser corpo. O boné do careca ajusta-se às dobras da nuca, tentando, a todo custo, ser cabelo. A camiseta surrada do roqueiro, com a estampa do Ratos de Porão, tenta ser pelugem, resguardando o jovem músico das pancadas da guitarra elétrica. O tênis fuleiro da adolescente arriscar-se no asfalto quente e nas poças d’água, pois almeja ser pé. A calça jeans da funkeira quer ser pernas e bunda, assumindo as sinuosidades dos músculos. A luva do goleiro chega antes naquela bola indefensável, sonhando jamais ser descalçada pelo arqueiro-herói.
Quanto mais tempo passamos com uma meia, ou um anel, ou uma pulseira, mais o objeto acredita que faz parte de nós. Por isso, é tão difícil jogar fora aquela bermuda floral descosturada. Ou aquela pochete de seis bolsos que você ganhou no Inimigo Oculto da empresa. Ou aquele troço plástico de R$ 1,99 que te enforcava na sétima série. Ou aquele short confortabilíssimo que você usava na aula de Educação Física e só parou de vestir porque virou peneira. Ou aquela gravata que você comprou no casamento da prima e nunca mais desfez o nó. Ou aquele relógio Casio que dizia ser à prova d’água e, na primeira prova, provou toda a água da piscina.
Tive um relógio desses, presente de meu pai. Não tirava para nada. Um dia, a pulseira se rompeu no meio de um baba. Despedaçou mesmo, sem chance de remendo, ou troca. “O único jeito” — disse o relojoeiro na feira livre — “é trocar a caixa e eu não tenho a caixa original desse relógio.”.  Tive que ficar mais de um ano com a marca branca do relógio Casio que queria ser pulso. Foi aí que comecei a pensar nessas coisas. Comecei a entender que esses trecos vão e as pessoas ficam. Também as pessoas vão embora um dia e talvez fique em nossa memória apenas aquilo que elas queriam ser.
Não faço aqui, caro leitor, nenhuma apologia. Nem ao apego excessivo, nem ao consumismo. Sei que muitas roupas e objetos obsidiam os donos por serem filhas-únicas. Sei também que outras sequer experimentam a sensação de tocar a pele do proprietário, pois ficam congeladas em grandes caixas e armários à espera de um caridoso transplante em campanhas do agasalho. Falando nisso, o Natal se avizinha. Que tal dar chance pr’aquele casaco novinho tentar ser corpo, aplacando o frio de alguém?

Foto: Georgio Rios

7 de dez de 2015

REC Temporada 2/Ep. 2: Trezentos e sessenta e cinco dias e quatro horas no banheiro

Nos anos noventa, nudez na tevê era a coisa mais comum do mundo. Tinha gente seminua nos programas infantis. Tinha gente seminua nos programas de auditório. Tinha gente seminua em programa de culinária. E tinha muita gente semi e nua na transmissão do carnaval. A Banheira do Gugu, atração do programa dominical quase homônimo, começava domingo à tarde e contava com uma multidão de “artistas” seminus pegando sabonete, se pegando e pagando o máximo de partes do corpo possível. Mas a coisa toda não chamava minha atenção. Eu via, achava engraçado às vezes. Até imitava o apresentador: “Valendooo!”, mas não maldava. De verdade. Só que o tal quadro perdurou. Perdurou. Perdurou. Tempo suficiente para minha voz ficar mal sintonizada. Eclodiam as primeiras erupções em minha cara quando, num domingo, procurando qualquer coisa na carteira de meu pai, uma moeda talvez, encontrei um objeto que mudaria para sempre o rumo da humanidade. Pelo menos na minha perspectiva. Um calendário de mulher nua. A foto não era das mais explícitas, eu saberia depois. Mas, para um saco de hormônios de 11 anos e meio, de olhos curiosos e que ficava corado com a seção de lingerie da Revista Hermes, aquele retrato (com os meses e dias de 1998 no fundo) era o ápice da pornografia impressa. Eu já sabia (mais ou menos) como as engrenagens rodavam neste departamento, tive aulas esclarecedoras no colégio e cantava de cor os clássicos Coca-Cola Espumante e Mariazinha Danada. Mas nem as aulas, nem a cantoria desbocada faziam aumentar o volume da cueca Zorba no embalo do coração que quase saíra pela boca. Aquele calendário, sim. Foi aquela foto que mudou a forma como eu folheava os catálogos, via a Banheira do Gugu e, é claro, encarava o sexo oposto.

Luiza Ambiel, Tiririca (dos tempos de Florentina de Jesus) e a Banheira.
Créditos da imagem: Veja.

6 de dez de 2015

REC Temporada 2/Ep. 1: Uma hora sem controle

Ao brother Yargo, que também fez parte dessa história

Pra maioria dos meninos de Riachão, no decorrer dos anos noventa, o domingo era um dia dedicado a liberdade. Andava-se de bicicleta livremente na Praça da Matriz e na Landulfo Alves. Jogava-se gude no jardim do Fórum e nas ruas sem calçamento dos bairros. Aqui e ali, batia-se o bom e velho babinha descalço. E, é claro, jogava-se videogame. Correção: jogava-se MUITO videogame nas locadoras que se espalhavam como ninhos de formigas pela cidade. Não é exagero dizer que, no centro, tinha uma em cada esquina. E eram lugares mágicos. Televisões de tubo enfileiradas, duas cadeiras plásticas na frente de cada tela, musiquinhas repetitivas ao fundo, botões de joysticks sendo massacrados sem qualquer cerimônia e garotos ferozes disputando quem latia mais alto. Mas tinha um tipo bem comum nas locadoras, que tirava a vontade de jogar de qualquer um: o Piru. Sempre tinha um Piru. Ou dois. Ou três. Ou um bando inteiro esperando o sleep timer da tevê avisar que faltava um minuto:
— Ei, moço! Apareceu o tempo! E depois é eu.
— Né nada, é eu! — grugulejava outro Piru batendo no peito com força.
— Né nada, é eu! Se sai! — grugulejava outro Piru, fazendo a clássica posição de “vai encarar?”.
— Né nada, é eu! Já avisei! — grugulejava outro Piru que, mesmo tendo chegado por último, dizia que era dele a vez só para tumultuar.
— Oxe... E eu não jogo não, é? — grugulejava o Piru mais comum de todos, que nem iria jogar, mas como fazer barulho e dar pitaco era de graça... Eu me incluía nessa classe.
E toda essa confusão para colocar “um real de tempo”, uma hora exata. Ou cinquenta centavos, meia hora. Mas era naquele tempo que aconteciam as brigas de rua mais emocionantes, as partidas de futebol mais acirradas, as corridas de carro mais disputadas, as voltas de skate mais radicais do mundo. Mesmo depois que a tevê desligava, sempre dava tempo de ir mais uma luta, ou terminar uma parelha, ou acabar o jogo. Sempre dava tempo de se divertir. Jogando, ou piruando. No controle, ou na arquibancada. Sempre dava tempo de ser livre, de ser criança.

Momento raro: uma locadora sem Piru. Créditos da imagem: PlayReplay