O mistério de Madeleine Morgan
Era verão e havia hidrantes abertos por toda a cidade. Em mais uma tarde calorenta, minha única incumbência foi organizar papéis e buscar potes de sorvete para o chefe. Estava tudo muito calmo, eu não diria calmo demais porque a venda de ingressos para a final do campeonato nacional de futebol tirava o silêncio do quarteirão.
No final do dia peguei o meu chevette 1989 e parti. Só depois de estacionar na garagem me dei conta que tinha esquecido as chaves no bolso esquerdo do uniforme. Não, eu não podia voltar ao departamento, pois era o dia do plantão de Jane White e certamente ela zombaria do meu pequeno deslize. A solução foi recorrer a minha vizinha Madeleine, ela certamente me emprestaria o sofá verde-limão até as cinco do dia seguinte.
Foi aí que o espírito da desgraça sobrevoou meu ombro. Senti meus dedos congelarem quando pus a mão na portinhola. Olhei para os lados e vi a cerca que ladeava a casa de Madeleine dando três giros. Cocei os olhos e entrei. Andando pelo caminho de pedra que levava até a porta senti novamente aquela tonteira estranha, parei alguns segundos na frente da porta e respirei profundamente antes de tocar a campainha. Madeleine me atendeu com o sorriso e a delicadeza de sempre, me abraçou, convidou-me pra entrar e fez sinal de positivo com a cabeça quando lhe contei o motivo da visita. Ela me deixou na sala e subiu para o segundo andar afirmando que tomaria uma ducha para, então, jantarmos.
Fiquei fumando um cigarro no primeiro cômodo da casa e observando cada detalhe do lugar. O lar de Madeleine não era nenhuma fabulosa obra da engenharia contemporânea, o interior era simples, mas perfeitamente organizado, típico de um lugar habitado por uma mulher solitária e sem muitas atividades. Apaguei o cigarro no cinzeiro, levantei e andei pelo primeiro andar da casa que além de pouco espaçoso cheirava a lavanda. Observei que de frente para a porta que dava pra a cozinha havia um espelho numa moldura dourada e, ao lado da escada, uma mesinha forrada com uma toalha desbotada sustentava um vaso com uma planta artificial. O reflexo da planta de plástico era estranhamente constante no espelho. Era também estranha a total ausência de porta-retratos.
Sentei e fiquei feito um tolo no sofá-cama no centro da sala, olhando a televisão de 32 polegadas desligada. Dava para ouvir o barulho do chuveiro que vinha do andar de cima. Mirei atentamente a escada em espiral e mais uma vez senti o mal-estar. Minha cabeça pesava uma tonelada, meus olhos pulavam para fora da face. Um ruído ensurdecedor me levou ao chão.
Acordei tonto e com a vista enevoada, ouvi vozes familiares. “Não, eu o conheço, ele não faria isso”, “Mas Paul, temos que leva-lo, está na cara que ele estava aqui na hora que aconteceu”, “O.K., você tem razão... olhe! Está acordando”.
– Richard? – disse a voz masculina.
– Dick, você está bem? – neste momento reconheci a voz de Jane White, “mas o que eles estavam fazendo aqui?” – pensei imediatamente.
–Ahn? O que houve? – perguntei.
– Richard, você não viu nada do que aconteceu, viu? – reconheci a voz de homem, era o detetive Paul, ex-colega de Academia.
– Não, eu estava aqui esperando a senhorita Madeleine descer e apaguei... – respondi coçando a cabeça.
O detetive Paul deu um suspiro profundo, olhou para a Srª. White com cara de alívio e me conduziu em silencio até o 27º departamento. A Srª. White tinha uma voz irritante. Talvez tenha sido por isso que me senti tão mal depois que ouvi seu relato:
– A suspeita é de abuso sexual, seguido de agressão física e homicídio. – disse ela fazendo careta - Foram encontradas marcas de tortura física, mas o delinqüente deixou pouquíssimos rastros. Acontece que, desafortunadamente, você era o único na casa, Dick. – virou-se para mim – Enviaremos os materiais coletados para a perícia e você prestará depoimento hoje às três.
Antes de me liberar, White ainda me disse que algumas pessoas que passaram pela frente da casa no momento do crime ouviram os gritos socorro de uma mulher e chamaram imediatamente a polícia. Ela convocou o detetive Paul e foram até a casa na Rua Wilde, nº 333, para averiguar o acontecimento. Tocaram a campainha, ficaram roucos de tanto chamarem e acabaram forçando a porta até arrombá-la. Eu estava caído de bruços no chão da sala e Madeleine morta sobre a cama de solteiro em sua suíte no andar de cima. Fui ao vestiário antes de sair do 27º DP. Peguei minhas chaves e lembrei de tudo que tinha acontecido. “Maldita hora que eu esqueci essas chaves” - pensei.
O caminho para casa nunca tinha sido tão demorado. “Você prestará depoimento hoje às três”, “Isso significa que tenho umas cinco horas” – pensei enquanto guiava meu chevette 1989 pela Rua Wilde. Para a minha surpresa fotógrafos e repórteres me aguardavam. Deixei o carro no jardim, entrei às carreiras e sem olhar para os lados. Mal entrei e o telefone tocou, eu tinha 25 mensagens na secretária, mas não ouvi uma sequer. Subi e sem me despir, adormeci.
– Richard, eu vou subir e tomar banho. Quando eu descer nós jantamos, O.K.? Você quer alguma coisa? – perguntou sorridente.
– Não Srtª. Madeleine, estou bem. – respondi me sentando no sofá-cama.
– Não! O que você está fazendo Richard?! Me larga! Me larga! Socorroooooo!
Acordei ofegante. A imagem de Madeleine gritando ao ser agredida por mim era nítida em minha cabeça. Não parecia um pesadelo, era uma lembrança esquecida em algum lugar da minha mente e que neste momento vinha à tona.
Já eram duas e meia da tarde. Levantei num pulo e olhei meu reflexo na janela. Pensava em me entregar ou fugir para outro país, mas ponderei alguns minutos e nessa hora eu já sabia que faria a coisa certa. Me troquei e pulei a janela do quarto. Fui rastejando até o carro conferir se meu ingresso estava no porta-luvas e fui disfarçado assistir à final do campeonato nacional de futebol, como se nada tivesse acontecido.

















