25 de mar de 2016

REC Temporada 2/Ep. 8: Batendo perna no picadeiro da vida

No meio de um jogo de gude, um menino chegou avisando que tinha circo na cidade.
— O moço ta dando ingresso a todo mundo! Bó lá, bó lá!
Quebramos a praça do fórum, deixando as gudes e sandálias pra trás, e saímos correndo, uns quinze, na direção do Campo da Nação onde se arma circo até hoje. No meio da lona, dos ferros e das tábuas que virariam arquibancadas, estava o palhaço. Seco, alto e com uma pintura quase desbotada, fazia todo tipo de galhofa pra uns oito meninos que já estavam lá antes de minha manada chegar em busca de entradas pro espetáculo daquela noite.
— Quem quer ingresso?
— Eu!
— Quem quer entrar de graça?
— Eu!
— Quem faz xixi na cama?
— Eu!
Risadas, risadas e mais risadas. Tudo de verdade, criança não ri pra agradar ninguém.
— A gente vai dar uma volta na cidade. Quando eu disser: Hoje tem palhaçada? Vocês respondem: Tem sim-senhor! 
— Hoje tem marmelada?
— Tem sim-senhor!
— Hoje tem trapezistas, malabaristas, equilibristas e o globo da morte! Não percam!
Percorremos a cidade toda no encalço do palhaço. Meninos e meninas se juntavam ao grupo por livre e espontânea vontade. Quando alcançamos da igrejinha da Bela Vista, já éramos uns quarenta. Por fim, ganhei meu ingresso. Cheguei em casa com a canela cinza e um sorriso cheio de dentes amarelos. Minha mãe estava na sala, cortando isopor. 
— Umbora, mai-nha! Vai ser bom!
— Chame seu pai, eu não gosto se circo.
Assim eu fiz:
— Ô, papai, bora...
— Mais qua! Gastar dinheiro com circo. A gente já vive num circo.
— Mas eu ganhei o ingresso ajudando o palhaço, ó aqui!
— Gastou canela à toa. Aqui diz: desconto na entrada. Nada é de graça nessa vida.
Não chorei mais porque, assim que o espetáculo começou, pude ouvir tudo da casa onde a gente morava. Só depois de grande entendi o que meu pai quis dizer. Antes de gastar canela é preciso usar a cabeça pra não ser feito de palhaço por aí.

Capa do VHS de um cráássico da Sessão da Tarde:
Os Saltimbancos Trapalhões (1981)

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