6 de dez de 2015

REC Temporada 2/Ep. 1: Uma hora sem controle

Ao brother Yargo, que também fez parte dessa história

Pra maioria dos meninos de Riachão, no decorrer dos anos noventa, o domingo era um dia dedicado a liberdade. Andava-se de bicicleta livremente na Praça da Matriz e na Landulfo Alves. Jogava-se gude no jardim do Fórum e nas ruas sem calçamento dos bairros. Aqui e ali, batia-se o bom e velho babinha descalço. E, é claro, jogava-se videogame. Correção: jogava-se MUITO videogame nas locadoras que se espalhavam como ninhos de formigas pela cidade. Não é exagero dizer que, no centro, tinha uma em cada esquina. E eram lugares mágicos. Televisões de tubo enfileiradas, duas cadeiras plásticas na frente de cada tela, musiquinhas repetitivas ao fundo, botões de joysticks sendo massacrados sem qualquer cerimônia e garotos ferozes disputando quem latia mais alto. Mas tinha um tipo bem comum nas locadoras, que tirava a vontade de jogar de qualquer um: o Piru. Sempre tinha um Piru. Ou dois. Ou três. Ou um bando inteiro esperando o sleep timer da tevê avisar que faltava um minuto:
— Ei, moço! Apareceu o tempo! E depois é eu.
— Né nada, é eu! — grugulejava outro Piru batendo no peito com força.
— Né nada, é eu! Se sai! — grugulejava outro Piru, fazendo a clássica posição de “vai encarar?”.
— Né nada, é eu! Já avisei! — grugulejava outro Piru que, mesmo tendo chegado por último, dizia que era dele a vez só para tumultuar.
— Oxe... E eu não jogo não, é? — grugulejava o Piru mais comum de todos, que nem iria jogar, mas como fazer barulho e dar pitaco era de graça... Eu me incluía nessa classe.
E toda essa confusão para colocar “um real de tempo”, uma hora exata. Ou cinquenta centavos, meia hora. Mas era naquele tempo que aconteciam as brigas de rua mais emocionantes, as partidas de futebol mais acirradas, as corridas de carro mais disputadas, as voltas de skate mais radicais do mundo. Mesmo depois que a tevê desligava, sempre dava tempo de ir mais uma luta, ou terminar uma parelha, ou acabar o jogo. Sempre dava tempo de se divertir. Jogando, ou piruando. No controle, ou na arquibancada. Sempre dava tempo de ser livre, de ser criança.

Momento raro: uma locadora sem Piru. Créditos da imagem: PlayReplay

Um comentário:

Yargo Carvalho disse...

Volto a repetir o que te disse na primeira vez que li, que quase choro com a forma tão viva e nostálgica, fiel em tudo e o sentimento que isso traz quando se lê, fantástico!