19 de mar de 2016

REC Temporada 2/Ep. 5: Cada pessoa escolhe aquilo lhe acolhe

Meus pais eram católicos. Bem católicos. Ainda são. Por isso, quando meu pai comprou um som com tocador de CD, vários cantores de igreja começaram a entoar seus hinos lá em casa. O bom dessa época é que a gente via menos televisão e escutava mais música. A ruim é que eu não tinha grana pra comprar meus próprios CDs. Aí, o jeito era rezar pra que meu pai escolhesse “O Grande Encontro”, ou “O Terço Toca Raul”, ou qualquer um do Pink Floyd. Eu tinha umas fitinhas de punk rock e reggae, que consegui com uns brothers da Rua do Cemitério, mas não podia ouvir na presença dos mais velhos.
— Você pode escutar o que quiser. A escolha é sua. Mas quando eu estiver em casa, quem escolhe o CD sou eu. Combinado?
Tinha como descombinar?
Um dia, meio injuriado com a vida, coisa que acontecia toda hora na pré-adolescência, olhei pra capa de um daqueles CDs das Paulinas e soltei essa pérola escrota:
— Esse cara é viado.
— Oxe, viado? — Respondeu minha mãe franzindo a testa.
— Olha esse arco-íris na capa do CD — respondi em tom de afronta mesmo, eu não tinha noção do perigo.
— Dark Side of the Moon tem um arco-íris na capa, não tem? — Disse meu pai, tropeçando no inglês.
— Mas ali...
— E outra: se ele for viado é da conta de quem? — Disse a mãe encerrando o assunto e aumentando o volume.
O CD com o arco-íris na capa (e um cara de jaqueta jeans e crucifixo no pescoço) ainda está lá na estante da sala. Meus pais já não curtem um som como naquela época, por falta de tempo. Ou por aquele desinteresse por coisas “menos importantes” que a idade traz. Mas continuam ensinando os mais novos a não se meter na escolha e no jeito dos outros. Combinado?

Jonny, A força da oração, Paulinas
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